Matera: a cidade cavada nas rochas

Milão nas mãos passa as fronteiras do Norte da Itália e lança a categoria pela Itália (encontradas no Menu Passeios) e começa com um destino surpreendente na pouco explorada região da Basilicata, onde as cores, sabores e perfumes fazem a Itália ainda mais Itália.

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

Em março desse ano, começamos a pensar em um destino para as nossas férias anuais sem filhas. Estando na Europa, as possibilidades eram múltiplas e chegamos até a pensar em algo mais longe como Bangkok, até que pensei: porque uma cidade em um outro país se nós não conhecemos ainda o Sul da Itália?

Sem escolher muito, a decisão foi uma viagem pela região da Puglia (a batata da perna e salto da bota) e já que iríamos até lá, porque não estender a viagem até Matera, a linda cidade cavada na rocha, que fica na região ao lado da Puglia, a Basilicata.

Chegamos ao aeroporto de Bari (Puglia) em uma manhã do final de junho e depois de retirar o carro que alugamos e passarmos por Trani e Alberobello (que vão ficar para um outro post), chegamos no final do dia sob uma forte chuva para as nossas 2 noites em Matera.

A chegada foi pela parte nova da cidade, que fica em uma parte plana, até entrarmos pelas ruelas da parte medieval onde ficava o nosso hotel, guiados pelo GPS meio enlouquecido e darmos de cara com uma éspecie de presépio de cartão postal. Eu acho que naquele momento, arregalei os olhos e fiquei alguns segundos com a boca aberta: Matera era, como eu esperava, realmente linda… mesmo embaixo de uma chuva de verão que não dava trégua.

viagem Italia Matera

Difícil falar de Matera sem contar um pouco da sua história milenar e bastante dolorida. Patrimônio Unesco desde 1993, no pós guerra a cidade foi considerada vergonha nacional, símbolo do atraso do sul do país, por conta da degradação e das condições miseráveis de milhares de famílias que viviam nas casas grutas, quase sempre junto com os próprios animais. As condições higiênicas eram péssimas, a taxa de mortalidade altíssima e nos anos seguintes o governo evacuou 15.000 pessoas da área.

Matera se esvaziou e caiu no esquecimento por 30 anos, até que nos anos 80 uma lei nacional destina verbas para a recuperação da zona. Em 1993 o reconhecimento da Unesco e a lenta retomada do burgo com um programa de restruturações subsidiado pelo governo e Comunidade Europeia que incentiva a compra de propriedades.

A parte ‘conhecida’ da cidade é chamada I Sassi di Matera (as rochas de Matera), um conjunto de casas cavadas como grutas e algumas construídas que se dividem em duas partes: Sasso Caveoso e Sasso Barisano, de idade medieval. Mas a região de Matera já era habitada em época Paleolítica e em uma parte do grande canyon, chamada Murgia, ainda é possível visitar algumas das 150 construções rupestres transformadas em igrejas a partir no ano mil.

dicas viagem matera italia

Para não perder todos esses aspectos históricos importantíssimos quando se conhece uma cidade como essa, já tínhamos reservado uma visita guiada só para nós dois com uma guia local. Eleonora, formada em História da Arte, nos guiou literalmente para cima a para baixo pelas ruelas escorregadias de Matera (eu estava com sandálias com solas não apropriadas), explicando e mostrando as complexidades e belezas da área por cerca de três horas.

Vimos os fornos comunitários usados para assar pães, o sistema de coleta de água da chuva secular, igrejas, mas o ponto alto do tour para mim foi a visita de uma das casas museus, onde é possível imaginar em que condições viviam até 10 pessoas (mais cavalos, porcos, cabras e galinhas) até pouco mais de 50 anos atrás.

casa_gruta_matera

Quase todas as casas grutas foram cavadas em profundidade, para baixo, para construir dois ou três ambientes. Os mais baixos, muito mais úmidos e frios, serviam como depósito para alimentos e vinho ou como estábulo, assim o calor dos animais ‘subia’ e esquentava os outros ambientes. Uma vida duríssima e sofrida. Tanto que a nossa guia, que tem uma avó que viveu nas grutas, nos contou que a senhora não entende como turistas de todo o mundo paguem as salgadas diárias dos hotéis da cidade para viver uma experiência que muitos materanos querem só esquecer.

Depois do tour e de um almoço rápido, o sol era forte e o calor implacável. Mesmo assim, ficamos zanzando por um centro quase deserto e de lojas fechadas que estava sendo decorado para a grande festa que os materanos fazem no dia de São Pedro, 29 de junho. A ideia era esperar para visitar o Palombaro Lungo, a enorme cisterna cavada nas rochas de Matera no século 17 e hoje localizada embaixo da praça da cidade, que perde como capacidade (pode conter até 5 milhões de litros de água) só para a cisterna de Istambul.

cisterna_matera

As visitas (em italiano e inglês contemporaneamente) são feitas por guias locais para pequenos grupos formados no momento.

A cidade tem um Museu Arqueológico riquíssimo (dada a idade pré histórica do lugar) e o Duomo está fechado há anos para reformas, mas caminhar por Matera é um esforço físico intenso e resolvemos que nossa exploração acabaria por alí.

No dia seguinte, depois de deixar o hotel e antes de irmos embora, fomos de carro até o outro lado da Murgia (o canyon) para ver Matera de uma outra perspectiva. Ainda que nós tivéssemos mais 5 dias pela frente com um roteiro de lugares lindos para conhecer, deixei Matera com um gostinho de quero mais. Eu teria ficado na cidade, sem problema nenhum, mais uns 2 dias.

Lembrando, antes de terminar essa parte sobre a cidade, que pela peculiaridade do território e sua história milenar, Matera foi escolhida como locação de vários filmes ao longo desses anos, como o Evangelho Segundo Mateus de Pasolini (1964) e a Paixão de Cristo de Mel Gibson (2004), filme que ajudou a despertar o interesse do mundo pela cidade.

Gastronomia

Ninguém discorda que a gastronomia é um dos pilares da fama da Itália pelo mundo e a do sul do país não decepciona. Feita de produtos locais e frescos, encontramos por lá coisas nunca provadas no mais gélido Norte.

Na noite que chegamos, uma segunda, alguns restaurantes estavam fechados e acabamos decidindo por um restaurante perto do hotel, o Restaurante Francesca,  uma construção cavada como tantas outras mas com interior mais moderno, onde acabamos provando dois tipos de massa com molhos aparentemente simples, mas deliciosos. Tudo acompanhado por um vinho local.

dicas matera restaurante

No dia seguinte, depois do nosso tour, a ideia era conhecer as famosas ‘laterias’ de algumas cidades do sul. Elas são como um açougue/mercearia com mesas e cadeiras onde você escolhe um corte de carne e eles preparam para você na hora.

Alí no centro optamos pela La Latteria, ambiente simples e autêntico onde comemos carne. Eu, lembrando da dica da minha guia, escolhi linguiça pezzente, um produto Slow Food feito de carne de porcos criados em estado selvagem.

restaurante_lateria_matera

A noite do segundo dia foi regada a vinho e risadas em um happy hour com a brasileira Cris Bergamini, que vive em Matera e que me ‘achou’ no Instagram quando postei uma foto da cidade. Da série ‘as maravilhosas pessoas que encontro através do blog’.

Hospedagem

Matera tem uma rede hoteleira incrível e diversificada, já que grande parte das construções da cidade medieval foram convertidas em hotéis, bed and breakfast e albergues.

Tínhamos decidido que a nossa hospedagem em Matera seria um dos pontos altos da viagem (além das paisagens e lugares visitados). A escolha ficou por conta do meticuloso (e romântico) marido, que depois de dias e dias de pesquisa, acabou reservando duas noites no exclusivo Sextantio Le Grotte della Civita

O hotel faz parte do projeto de um empresário italo-sueco (ele tem outro na região de Abruzzo) de recuperação de burgos e áreas abandonadas e em Matera ele é composto de cerca de 20 quartos-grutas concentrados em uma pequena área do Sasso Barisano onde também ficavam a recepção e a sala de café da manhã, montada onde antes era uma igreja.

dicas hoteis matera italia

A proposta do hotel é de uma intervenção mínima nas grutas e os quartos, bem peculiares, não tem televisão, frigobar ou telefone. Você está alí para apreciar Matera e isso não inclui nem a ideia de assistir o jornal da noite e suas notícias pouco animadoras.

A nossa suíte tinha cerca de 140 mt² divididos em 3 ambientes: o quarto, um banheiro com chuveiro e  pia onde antes era um estábulo (a pia era uma manjedoura  e os ganchos nas paredes eram usados para amarrar os cavalos) e a cenográfica sala de banho, onde uma banheira de design reinava no meio, rodeadas de velas. Todos os produtos (sabonetes e shampoos) eram orgânicos e os móveis também eram em linha com o ambiente: todos antigos e de madeira.

dicas hoteis italia matera

Entrando no quarto-gruta, se sentia a umidade e um leve cheiro de molhado, mas um grandíssimo desumidificador dava conta do recado. Mesmo assim, em pleno final de junho, dormimos de cobertor.

Os quartos da parte de baixo do hotel tem vista (saindo na varanda) para a espetacular Murgia de Matera, uma espécie de canyon atravessada por um longo riacho. É do outro lado que ficam a maior parte das igrejas rupestres da região, que acabamos deixando para visitar em uma outra ocasião (as visitas são feitas só com guias autorizados).

O café da manhã do hotel também era a altura de toda atmosfera: mousse de ricota, mozzarelas frescas, foccacias e bolos caseiros, frutas e pães da região servidos em grande mesas de madeira dentro da igreja-gruta.

cafe_sextantio

Se Matera em si já é uma experiência intensa, a hospedagem no Sextatio foi uma escolha perfeita para coroar a nossa estadia na cidade.

Outros hotéis na cidade propõe quartos dentro das grutas cavadas nas rochas materenses, como o Hotel in Pietra, propriedade da brasileira Cris Bergamini e seu marido.

Na noite que conversamos e rimos muito, fui conhecer a estrutura, elegantemente decorada por Cris com uma mistura de móveis locais e brasileiros. A minha paixão foi por um quarto com um terraço com vista para as rochas de Matera.

hotel em Matera Italia

Já que resolvi que mais cedo ou mais tarde volto a Matera, pelo menos o próximo quarto já está escolhido.

Para quem é adepto dos albergues da juventude a opção é a Fondazione Le Monacelle, que dispõe de 12 quartos com ar condicionado, café da manhã incluído por preços mais modestos do que as outras estruturas hoteleiras da cidade.

Para reservar o hotel Sextantio Le Grotte della Civita com Booking, clique aqui

Para reservar o Hotel In Pietra, clique aqui

Para reservar o albergue da juventude Le Monacelle com Booking, clique aqui

Para pesquisar e reservar outros hotéis em Matera com Booking, clique aqui

Como chegar

A região da Basilicata não tem aeroporto e a melhor maneira é chegar até a Puglia. Nós pegamos um voo Milão-Bari e lá alugamos um carro para rodarmos pela região por 6 dias.

É possível também chegando de avião em Bari pegar um trem ou shuttle até Matera.

Para alugar um carro na Itália com a Rentalcars, clique aqui

*Esse post contém link para afiliados (Booking e RentalCar). Para saber sobre nossa política de monetização, clique aqui.

Expo 2015 Milão: uma questão de pele

Tags

,

Share it

Quem apresentou a candidatura de Milão para sediar a edição 2015 da Expo, com certeza tem o mérito de ter sabidamente escolhido como tema a comida, que nos países desenvolvidos é um dos prazeres da vida ao qual ninguém renuncia e, nos países em via de desenvolvimento, onde a comida falta é um “problema” para ser resolvido. Diferentes dos temas escolhidos nas edições passadas, orientados por exemplo a tecnologia, a alimentação é um tema simples e atraente e não só porque “fala” ao estômago dos visitantes.

Pelo que se viu até agora, os projetos dos países estrangeiros trarão bom conteúdo e irão demostrar de ter afrontado o tema com seriedade e não em um clima: todos à mesa.

Milão Expo 2015 dicas

Como já escrevi nesse post sobre a Expo2015, o tema dessa próxima edição é: Nutrir o planeta, energia para a vida e prevê incluir tudo o que diz respeito a alimentação, do problema da falta de alimentos em algumas zonas do mundo à educação alimentar, até os temas ligados ao alimentos geneticamente modificados. Serão apresentadas tecnologias, inovações, as culturas, as tradições e a criatividade ligadas ao setor da alimentação. Obviamente, para passar da teoria a prática, todos os países irão apresentar as suas excelências em campo gastronômico que poderão ser saboreadas nos restaurantes montados em seus próprios pavilhões.

Agora em setembro está prevista a chegada dos países para a construção de seus pavilhões e aqui mostro o rendering de alguns deles, apontando um aspecto muito interessante, que é a atenção a eco sustentabilidade que muitos deles vão dar as suas “peles”, aos seus revestimentos externos.

Palácio Itália

dicas Milao Expo 2015

O conceito do Palácio Itália é de uma arquitetura paisagem onde o edifício assume através da própria pele as semelhanças de uma árvore florestal na qual se embrenhar. O revestimento é realizado em cimento fotocatalítico que captura alguns elementos poluentes do ar e os transforma em sais inertes.

Future Food District

fooddistrict

fooddistrict2

fooddistrict3

O Future Food District vai hospedar as tecnologias e as inovações mais recentes para a produção, conservação e a distribuição de alimentos, com o supermercado e a cozinha do futuro. O revestimento desses pavilhões será coberto de uma cultivação de micro algas que vão absorver 10 vezes mais anidrido carbônico do que outras plantas e que depois podem ser utilizados como biocombustível.

Pavilhão Brasil

pavilão Brasil Expo 2015 Milão

Inspirado no tema “Alimentar o mundo com soluções”, o pavilhão brasileiro vai usar a metáfora da rede -flexibilidade, fluidez, descentralização – para mostrar a conexão e integração dos diferentes aspectos pelos quais o Brasil conquistou o papel de líder mundial de produtor de alimentos. Em uma área de cerca 4.000 m2, o Brasil vai mostrar aos visitantes da Expo 2015 todas as possibilidades em fase de estudo e de realização para aumentar e diversificar a produção alimentar e satisfazer a demanda de alimentos em todo o mundo, usando tecnologias avançadas em modo sustentável.

Pavilhão México e USA

Outros exemplos de revestimentos interessantes: o pavilhão México parece uma grande espiga de milho e o dos USA a parede de um grande celeiro.

mexico usa

Certamente, visitar esses interessantes espaços, vive-los, degustar a gastronomia de quase 150 países, vão ser motivos suficientes para visitar Milão de maio a outubro de 2015 durante a Expo.

Milão espera a passagem de cerca 20 milhões de visitantes. Você vai ser um deles?

Tags

Share it

Em qualquer cidade do mundo, existem sempre curiosidades, que muitas vezes passam despercebidas por turistas e até locais. O significado de um monumento, de uma estátua, de um desenho em um muro e por aí vai.

Por aqui não é diferente e resolvi selecionar só 5 curiosidades sobre Milão (as que geralmente eu mostro durante os passeios culturais) para tornar seu passeio quase uma experiência investigativa. Três deles ficam concentrados na Praça Duomo e você só não vai procurar na sua próxima passagem por Milão, se não ler esse port.

1. A porta “bombardeada” do Duomo

Para quem não sabe, Milão foi intensamente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e os bombardeiros de agosto de 1943 foram os mais intensos. A nossa catedral não foi diretamente bombardeada e diz a lenda que foi por causa de um acordo verbal feito entre o cardeal de Milão, Idelfonso Schuster com os ingleses.

curiosidades de Milão

Mas os arredores do Duomo foram destruídos e o Palazzo Reale, Galleria, Scala e até a loja La Rinascente, saltaram pelos ares. Com isso, parte da catedral foi danificada com os estilhaços dos pesados bombardeios, que lançaram toneladas e toneladas de bombas na cidade.

Na porta central do Duomo é possível ver as marcas nas cenas que contam a história da vida da Virgem Maria.

2. O calendário solar do Duomo

Mais uma entre as várias curiosidades da catedral que muita gente nem percebe, já que entra olhando para cima, impressionados com a sua grandiosidade.

Mas mesmo quem olha o lindo pavimento original do século 16, às vezes não entende o que fazem ali, em uma igreja, os desenhos dos signos do zodíaco.

O calendário do Duomo fica perto das portas frontais e é uma linha de bronze que corta de norte a sul o chão e ainda sobe por três metros pela parede (norte – nave da esquerda), onde termina com a imagem do signo de Capricórnio.

Ele foi colocado em 1776 durante o domínio austríaco e é de clara influência iluminista. Ele foi realizado por dois astrônomos de Brera e foi pensando para mensurar com precisão o meio dia e para determinar a data (móvel) de Páscoa.

Como funciona? Entrando na catedral, vá até o lado direito e olhe para o teto. A 24 metros de altura você vai ver um pequeno furo. É ali que ao meio dia (solar) entra a luz do sol e marca na meridiana a hora e o período do ano.

Esse ano, durante um passeio cultural, entrei na catedral as 13h11 (horário de verão) do dia 21 de junho, dia do solstício de verão. Nem tinha me ligado na data e quando fui mostrar a meridiana, um pequeno grupo de milaneses estava em volta do desenho do signo de Câncer.

milão curiosidades

Ficamos parados esperando que a faixa de luz solar se aproximasse do desenho. As 13h17 a luz iluminava do desenho marcando o dia 21 de junho. Impressionante.

Quando o calendário/relógio foi realizado, um funcionário ficava controlando a luz e quando a luz marcava meio dia, ele saía no adro da igreja e agitava uma bandeira branca. Um colega, que ficava na torre do Palácio do Giureconsulti (do outro lado da praça) o via e também agitava uma bandeira branca em direção ao Castelo Sforzesco, onde finalmente um soldado dava o sinal e disparavam um tiro de canhão para marcar o meio-dia.

A próxima vez que você entrar no Duomo, não perca. Todo mundo se diverte tentando achar o próprio signo.

3. As setas da Praça Duomo

A praça monumental milanesa tem várias atrações turísticas: o Duomo, a Galeria, o Museu 900, o Palácio Real, a enorme estátua de Vittorio Emanuele no meio. Com tantas “distrações”, ninguém repara nas duas setas meio apagadas que ficam em duas colunas dos pórticos ao lado norte da praça, em frente a uma das entradas do metrô.

Milão dicas guia de Milão

Elas sinalizavam os abrigos subterrâneos pela cidade durante a Segunda Guerra Mundial.  Várias delas estão espalhadas por outras partes da cidade.

4. O interfone orelha

Poucos turistas se aventuram pelos arredores de Corso Venezia. Uma pena, já que a zona é uma das mais elegantes de Milão (a minha preferida) com seus palácios do século 18 (ao longo do Corso) e suas ruas tranquilas que formam o Quadrilátero do Silêncio emoldurado pela bela arquitetura Liberty do início do século 20.

orelha_milao

Em um desses palácios, em Via Serbelloni 10, no Palácio Sola Busca, fica uma originalíssima orelha esculpida em mármore pelo escultor milanês Adolfo Wildt nos anos 30 e que por alguns anos serviu de interfone. Hoje não funciona mais, mas não tem quem passe e não tire uma foto.

5. O ‘contorno’ da Coluna Infame

A história é milanesíssima e mesmo assim muitos locais não a conhecem. Tudo começa no século 17, durante a pior peste que se abateu sob cidade: a grande peste de 1630, onde 1/3 da população morreu.

O medo e o fanatismo permeavam a ‘lenda’ de que a peste era transmitida por improváveis “untores” , nome que em do verbo untar, lambuzar, que apoiados a muros e portas transmitiam através de um unguento, a fatídica doença.

Até que um dia, um pobre do agente de saúde foi acusado por duas mulheres de ter sido visto passando a mão em uma porta. Capturado e torturado, confessou e indicou um cumplice, o barbeiro Gian Giacomo Mora.

Na barbearia do coitado, em Corso di Porta Ticenese, foram encontrados pastas, pomadas e unguentos (temos que lembrar que esses profissionais também eram médicos, na época) que foram confundidos com a substância pestífera.

Gian Giacomo também foi capturado, torturado de forma bárbara e achando que poderia livrar a pele, mentiu, confessando tudo.

Os dois foram levados para Piazza Vetra (atrás da Basílica de San Lorenzo) e foram colocados em uma roda, tiveram todos os ossos quebrados, ficaram expostos por 6 horas antes de serem queimados vivos.

A barbearia foi demolida e no lugar foi colocada uma coluna de granito e uma lápide, que lembrava a barbaridade cometida. Em 1803 a coluna foi destruída e a lápide hoje fica no pórtico do Elefante no Castelo Sforzesco.

Quem desce hoje o Corso de Porta Ticinese quase nem repara na obra na esquina da Rua Gian Giacomo Mora e se repara, não entende a escultura côncava que fica na esquina.

milao_segredos

Ela está ali, como o ‘contorno’ da Coluna Infame destruída, lembrando uma história que está longe, mas que foi um dos episódios negros da cidade. Uma outra lápide colocada em frente explica a história.

Para cada uma dessas curiosidades, Milão tem muitas outras, bem interessantes, mas quem sabe ficam para um outro post.

Existem várias maneiras de conhecer uma cidade: tem quem se aventure pelas ruas com um guia nas mãos, tem quem circule confortavelmente sentado em ônibus de 2 andares e cada um sabe o que é melhor para a própria viagem, mas conhecer uma cidade com um tour ou passeio guiado em português, de forma personalizada pode realmente enriquecer a sua experiência e cada vez mais tem quem opte por conhecer os segredos da história, lendas e costumes de uma cidade ao lado de quem vive no lugar e que sabe interpretar as expectativas do turista brasileiro pelo mundo afora.

Passeios culturais a pé ou em bicicleta, tours em museus ou com degustações, eles são pensados para atender pequenos grupos, com necessidades e interesses específicos, de forma personalizada, já que o esquema 30 pessoas atrás de um guia com guarda-chuva levantado não faz parte do repertório.

tour em milão em portugues

Passeio cultural no Castelo Sforzesco em Milão

A vantagem de conhecer uma cidade com quem conhece a cidade, é se embrenhar por ruelas que sozinho você não ousaria, é saber porque naquele monumento ou palácio tem aquela pintura ou afresco, onde é o melhor lugar para comer a especialidade da cidade e como não cair em frias.

Eu costumo dizer, que faço passeios com intermediação cultural, já que é inevitável durante o tempo junto, que surjam perguntas sobre as diferenças entre o Brasil e a cidade que você está visitando. Coisas que só um guia-acompanhante brasileiro pode te contar, já que conhece os dois lados.

Tour e passeios em com guias e acompanhantes brasileiras em Milão, Florença, Barcelona, Porto, Paris, Londres, Berlim, o time de brazucas que mostram o melhor das suas cidades os brasileiros é grande e inclui vários tipos de passeios.

Além dos nossos passeios culturais a pé por Milão e os acompanhamentos aos arredores como Como, Verona e Veneza, quem viaja para outras cidades europeias pode contar com a companhia e conhecimento de várias profissionais (clique nos links dos blogs para saber mais sobre os serviços oferecidos).

A historiadora Cristina Rosa, do blog Sol de Barcelona, faz tours a pé ou de bicicleta pela capital da Catalunha, mas tem também um tour pelo famoso Bairro Gótico e um que percorre as obras do arquiteto Antonio Gaudí. Pura beleza!

tour em Barcelona

Cristina durante tour em Barcelona

Quem visita a Cidade Luz, pode contar com a ajuda da brasileira Laura Prospero, que escreve o blog Laura em Paris, mora lá desde 1992 e oferece passeios a pé para conhecer cada cantinho da cidade mais visitada da Europa.

No Porto, a paulista Rita Branco, que conhece cada cantinho da cidade e comanda o blog O Porto Encanta, dá assistência a brasileiros que querem conhecer melhor a segunda maior cidade de Portugal, tudo com muita descontração.

Rita (à direita) mostrando o Porto com descontração

Rita (à direita) mostrando o Porto com descontração

Que vai a Berlim pode contar com a ajuda do casal Nicole e Pacelli, que estão por lá há 5 anos e oferecem vários tipos de passeios pela capital e comandam o blog Agenda Berlim.

Em Londres, Vivi Monteiro do blog Vivi em UK faz os tours clássicos pela capital, mas oferece também tours para os adolescentes loucos pelo mago mais famoso da literatura, Harry Potter e acompanhamentos a arredores com Oxford e Stonehenge e até com o chá das 17h.

tour portugues em Londres

Vivi (à direita) durante tour em Stonehenge

Em Florença a carioca Cristiane Oliveira do site Guia de Florença é habilitada oficialmente para mostrar o melhor da cidade do Renascimento, incluindo os museus, como a famosa Galleria degli Uffizi.

Da próxima vez que você vier para a Europa, considere a possibilidade de conhecer a cidade de maneira diferente a aprofundada. E quem conhecer guias brasileiros em cidades europeias não citadas aqui, pode deixar as dicas nos comentários.

Boa viagem e bom tour!

O design e Milão

Milão conquistou nas últimas décadas a fama de capital da moda e do design. Apesar da publicidade nas mídias, o conceito de design italiano permanece muitas vezes abstrato: se sabe que existe, mas não se sabe bem o que é. Na verdade, os nossos designers levaram para o mundo, inovações que entraram na vida cotidiana, muitas vezes melhorando-a.

luminaria arco

Aqui alguns exemplos, na verdade os meus preferidos, de inovações criadas por designer milaneses, sejam de nascimento ou por escolha.

A cadeira em policarbonato Kartell

Difícil de usar na moldagem, até os anos 90 o policarbonato não era utilizado no mundo dos móveis. Depois de anos de pesquisa a empresa milanesa Kartell consegue dar vida a um produto de design industrial: La Marie, a primeira cadeira no mundo realizada em policarbonato toma forma em 1999 com desenho de Phillipe Starck. Não precisa nem dizer que outros produtos de sucesso em policarbonato foram produzidos pela Kartell e outras empresas com sucesso nesses últimos 15 anos.

cadeira Kartell

Para quem quiser conferir esse ícone, é só dar uma passadinha na nova Eataly Milão para o almoço ou aperitivo para se sentar em uma cadeira Kartell.

O blazer desestruturado de Giorgio Armani

A produção de Armani abrange vários tipo e modelos de roupas, mas é com o blazer que o estilista revoluciona nos anos 80 o design: os suportes internos são removidos, os botões são mudados de lugar e as proporções tradicionais são modificadas. Nasce assim o blazer desestruturado, símbolo absoluto do seu estilo.

blazer Armani

O blazer vira protagonista do tailleur de corte masculino que Giorgio Armani desenha para as mulheres. Com tonalidades de cinza misturado com bege, sem cores fortes ou estampas floreais, o estilo Armani significa para milhares de mulheres uma elegância descontraída e finalmente autônoma.

Hoje esse estilo é a normalidade, mas antes de Armani não era.

A luminária Arco de Floss

Os irmãos Castiglioni, dupla de arquitetos milaneses, criaram para a Floss em 1962 essa luminária que até hoje é vendida da sua versão original e está entre umas das mais copiadas.

Ainda semana passada, em um passeio pelos subsolos da La Rinascente que hospeda o Desig Market, eu suspirava em frente de uma enquanto segurava a etiqueta com o preço. Confesso que acho ela linda, porque gosto daquele design datado mas que mais de 50 anos depois, ainda é atual.

luminaria floss

O conceito principal do Arco é a sua versatilidade e praticidade, que nasce da ideia de ter um ponto de luz efetivamente suspenso em cima do lugar desejado, que pode ser uma mesa, escrivaninha ou um livro, sem ter que estar vinculado a um sistema a suspensão com um ponto fixo.

Arco ainda hoje é o protótipo de inúmeras luminárias produzidas por outras marcas e baseadas no mesmo conceito.

Concluo esse brevíssimo percurso no design milanês com um nome que nos deixou recentemente e falando de design de interiores.

Design de interiores: Musée d’Orsay

Na ocasião da transformação de velha estação ferrovíaria em museu, é Gae Aulenti que projeta os espaços internos do percurso expositivo do Musée d’Orsay.

É ela que opta pela pedra calcarea clara, que dá luminosidade as salas, aproveitando ao máximo a luz que entre pela abóboda em vidro e ferro e que ao mesmo tempo rende o espaço um lindo conjunto.

design interiores Milão

Podemos dizer que quando admiramos os impressionistas em Paris, atrás de Cezanne e Renoir existe literalmente a milanesíssima Gae Aulenti.

Fotos: wikicommons e internet

1 2 3 38