Modena: terra de Ferrari, Pavarotti e muito mais

Existem cidades que são ligadas a nomes de personagens famosos da história recente ou poderíamos também dizer ao contrário: existem personagens da história recente que estão fortemente ligados ao nome de suas terras natais.

É o caso da cidade de Modena, na região italiana da Emilia Romagna e seus filhos mais ilustres: Enzo Ferrari e Luciano Pavarotti. Dois nomes que dispensam apresentações e que só contribuiram para enriquecer ainda mais uma região também cheia de tradições artísticas-culturais e enograstrônomicas.

Porque a Emilia Romagna, é a terra da Ferrari e de Pavarotti, mas também do Lambrusco, do queijo Parmigiano Reggiano e do verdadeiro Vinagre Balsâmico Tradicional.

Foi pensando em colocar essas excelências do terrítorio a disposição dos turistas durante o período da Expo2015, que o órgão de promoção turística da Emilia Romagna criou o Passaporte Discover, um passe com duração de 48 horas com serviço de van e que inclui todas as entradas nas etapas do itinerário para você descobri e deixar de surpreender por mais um pedacinho do Norte da Itália.

E foi para conhecer esse itinerário e suas etapas que, com outros 6 blogueiros, passei um final de semana entre Modena e Maranello para poder contar tudo para vocês e concluir que mesmo depois de 13 anos nesse país e a apenas 165 km de casa, a Itália ainda é capaz de me surpreender.

Como funciona:

A partir do dia 4 de abril e até o final da Expo2015 no dia 31 de outubro, é possível visitar todas as 14 etapas do Discover Ferrari e Pavarotti Land por 48 horas comprando o passe que incluí a entrada em todas as atrações do itinerário e também o serviço de van para quem está sem carro.

Das 10 às 17h, a cada hora, uma van saí das estações de Bolonha, Modena e Reggio Emilia (perfeito para quem está em Milão e quer udar o trem) ou do Museu Ferrari em Maranello e do Museu Enzo Ferrari em Modena e fazem o percurso circular das atrações.

mapa ferrari

Foto divulgação Discover Ferrari e Pavarotti Land

Você desce onde quiser e fica o tempo que quiser aproveitando a atração e sabe que de hora em hora passa uma outra van para você proseguir. É você que decide o que ver e por quanto tempo.

O passe também pode ser adquirido por quem está viajando pela Itália de carro.

As etapas:

Museu Enzo Ferrari (Modena)

O museu se divide em dois espaços: a oficina onde nasceu os carros Ferrari e que expõe alguns modelos de competição e um outro espaço mais moderno, dedicado a outros modelos e a exibição de um filme que conta um pouco da vida de Enzo e Pavarotti.

visitar museu ferrari modena

Vinícola Cleto Chiarli

A mais antiga vinícola de Lambrusco da região, fundada em 1860 e produtora de vinhos de qualidade, onde é possível conhecer a produção e degustar os vinhos.

Hombre e Coleção Maserati

Empresa agrícola que produz queijo Parmigiano Reggiano biológico e que possui uma das coleções privadas mais espetaculares de Maserati.

Malpighi Balsâmico, Giusti Balsâmico e Consorteria Balsâmico

Visita as empresas e museu (Consorteria) que produzem com o método tradicional o famoso vinagre balsâmico da cidade. Com certeza, o ponto alto do final de semana para mim. Primeiro porque eu sempre gostei do produto, segundo porque não conhecia (quase) nada da produção dele.

vinagre balsâmico modena

Provar um vinagre balsâmico tradicional com 12, 25 e 50 anos de envelhecimento, não tem preço.

Museu Ferrari e cidade de Maranello

Visita ao famoso museu na cidade de Maranello, sobre o qual já contei nesse post, entre modelos famosos e de Formula 1.

Depois, pare para comer a deliciosa especialidade local, gnocco fritto com queijos e frios. Bem alí pertinho do museu, tem o restaurante Drake, onde eu já tinha almoçado uma vez. Provado e aprovado.

Museu Casa Pavarotti

Chamada de “Casa Vermelha”, foi sua última residência e recentemente transformada em museu multimedial dedicado a mémoria do grande tenor italiano.

Abadia de Nonantola

Etapa artística-cultural na abadia do século 8 situada na pequena cidade a poucos quilômetros de Modena.

MuSa – Museu dos Frios

No estabelcecimento Villani, produtor de presuntos e embutidos desde 1886, um interessante museu que mostra as fases de produção das famosas mortadelas de Bolonha, presunto de crú de Parma e San Daniele, presunto cozindo, copa e outras variedades.

4 Madonne – Parmigiano Reggiano

Fábrica do famoso queijo italiano, parmigiano reggiano, produzido só nessa região, a visita do estabelecimento surpreende pelas várias fases, que respeitam a tradição.

No final, é possível degustar alguns tipos de parmigiano.

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Palácio Ducal de Sassuolo

A cidade, famoso centro de produção de pisos e azulejos de alta qualidade, tem origem medieval e hospeda o belo Palácio Ducal, que foi residência de verão do ducado Estense.

Modena

A cidade, famosa pelos seus filhos ilustres e por ser sede da Ferrari, Maserati e do famoso autódromo, é uma das etapas dedicadas a arte e cultura, com seu centro histórico e a Piazza Grande, um dos 50 Patrimômios Unesco italianos.

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Quanto custa:

O passe Discover Ferrari e Paravotti Land custa 60 euros por pessoa por 48 horas de serviço van e entradas nas atrações.

A partir do segundo dia, cada dia adicional (se você quiser fazer as coisas com mais calma) custa 25 euros por pessoa.

Não estão incluídos nos preços as despesas de hospedagem (mas é possível adquirir pacotes a partir de 260 euros por pessoa), alimentação, taxas.

Onde comprar:

Pelo site  www.ferraripavarottiland.it

Vivara Viaggi  booking@vivaraviaggi.it

*Minha viagem a Emília Romagna foi um convite e faz parte do Discover Ferrari & Pavarotti Land project, uma colaboração entre Emilia-Romagna Tourism Board e iambassador, mas todas as opiniões aqui relatadas são pessoais.

Visitando o Museu Ferrari em Maranello

Nunca fui ligada em carros e com isso, mesmo em todos esses anos aqui, nunca nem me passou pela cabeça visitar o Museu Ferrari em Maranello, na região da Emilia Romagna. Até que há alguns meses surgiu um pedido de uma cliente para fazer esse passeio e lá fomos nós.

A Ferrari (La Rossa, como é chamada aqui) é com certeza um dos ícones italianos mais famosos e desejados no mundo. Fundada em 1929 por Enzo Ferrari, por décadas produziu componentes para a Alfa Romeo e para aviões e só em 1947 a construção de carros se tornou a atividade principal da fábrica. Hoje, a marca produz carros esportivos de alto nível e carros de corrida, que era a grande paixão de Enzo Ferrari.

visitar museu ferrari maranello

Chegamos ao museu no final da manhã, depois de cerca de 3 horas de viagem de carro. Era um dia de semana de setembro, não tinha filas ou grandes grupos de turistas. Nós, por falta de tempo, optamos pela visita só do museu, mas é possível também fazer a visita da pista (de dentro de um ônibus, sem possibilidade de descer) e do Museu Enzo Ferrari, mas que fica em Modena.

A primeira sala do museu é dedicada a mostras temporárias, mas o resto do percurso, que não é grande, fica por conta dos maravilhosos carros que fizeram a história da marca do cavalinho.

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Eu fiquei encantada com os modelos antigos, anos 60 e 70 e escolhia um como meu preferido, até encontrar outro ainda mais bonito.

Antes de passar para a grande sala que expõe os famosos carros da Fórmula 1 e todos os troféus conquistados ao longo dos anos, uma pequena sala de cinema exibe um trailer com cenas de filmes e seriados famosos onde a Ferrari era também a protagonista. Quem não se lembra de Magnum, Al Pacino em Perfume de Mulher, Miami Vice e o maravilhoso Curtindo a Vida Adoidado?

Do lado de fora do cinema, fica também a reprodução do escritório de Enzo Ferrari.

Para os apaixonados pela F1, é a última sala a mais esperada. Modelos antigos e novos se misturam com telões onde trechos de vídeo mostram entrevistas e depoimentos dos grandes corredores da construtora.

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A última parte é dedicada ao espaço para quem quer se divertir e tentar o simulador (pagamento a parte), ao bar ou as inevitáveis compras na lojinha.

A visita o museu pode ser feita tranquilamente em cerca de 1 hora e vale a pena para os (muito) apaixonados pela marca. Como museu de carro, achei o Museu do Automóvel de Turim bem mais interessante (leia post aqui).

A cidade de Maranello respira Ferrari, então você vai encontrar lojas com inúmeros produtos e propostas para dirigir “una rossa” por toda parte.

Quando saímos do museu, era hora do almoço e eu não poderia deixar de procurar um lugar para comer o delicioso gnocco fritto, um prato típico da região emiliana que parece um pastel (vazio) que se come com frios e queijos moles. Foi a recepcionista do museu que me indicou o bar Drake, bem na rotátoria do centro. Se você for para aqueles lados, não deixe de provar.

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E foi a melhor maneira de terminar essa aventura automobilistica, antes de voltar para Milão.

COMO CHEGAR:

Maranello fica a 190 km de Milão – 20 km de Modena – 50 km de Bologna.

Para quem vai de carro, existem boas indicações para chegar ao museu.

De trem, de Milão, é possível ir até Modena com o Frecciabianca (cerca de 1h40). Da estação, existe um serviço (pagamento) de vans do museu que levam até o Museu Enzo Ferrari em Modena e depois ao Museu Ferrari em Maranello.

Se você tem tempo, pode fazer os dois. O ideal é reservar o serviço no site do museu.

MUSEU FERRARI- MARANELLO

Via  A. Dino Ferrari 43 Maranello
 
De 1 de novembro a 31 de março: todos os dias das 9.3o às 18h
De 1 de abril a 31 de outubro: todos os dias das 9.30 às 19h
Fechamento: 25 dezembro e 1 janeiro
Ingressos: adulto inteiro 15 euros – menores de 6 a 18 anos (acompanhados dos pais) 10 euros – acima de 65 anos 13 euros
Ingressos combinados museus + serviço van (reserva obrigatória): consultar site clique aqui

Mântua e Sabbioneta: pérolas Unesco na Lombardia

Viver em um país com o patrimônio artístico e cultural como o da Itália, faz sim com que você esteja sempre a poucos quilômetros das belas cidades, mas elas são tantas para conhecer, que as vezes passa um bom tempo até que você repita uma.

Foi assim com Mântua, que conheci há quase 10 anos atrás, em um bate e volta em um ensolarado sábado de maio. Corria o ano de 2005, mas eu tinha boas lembranças do lugar.

Eis que, entre as satisfações da minha breve vida de blogueira, fui convidada pelo projeto Blogville, setor turismo da Região da Lombardia e setor turismo da Província de Mântua para uma viagem de 2 dias na cidade junto com outros 4 blogueiros no final de setembro.

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As atividades foram concentradas em Mântua e Sabbioneta, inseridas da lista dos Patrimônios Unesco (leia aqui o post sobre os patrimônios na Lombardia) em 2008 e infelizmente afetadas durante o terremoto de 2012 na região fronteiriça da Emilia Romanha.

Chegamos em Mântua de trem, partindo de Milão e depois do check-in no nosso hotel, fomos diretamente o agro turismo Corte Pagliare Verdieri onde nos esperava a simpática Mimma para a colheita da uva e a preparação do sugolo , uma espécie de pudim da região feito com o suco da uva e farinha. Depois de colher, espremer a fruta e preparar o doce, almoçamos e seguimos para Sabbioneta, onde nos esperava Manuela para um tour de 2 horas.

Sabbioneta

Fundada entre 1554-1556 por Vespasiano Gonzaga como cidade ideal, foi pensada sobretudo como uma fortaleza, completamente cercada pelas muralhas que até hoje se atravessam para entrar e que com certeza naquela época representavam um dos baluartes mais equipados da Lombardia de domínio espanhol.

Conhecer Mântua e Sabbioneta

Colocada entre os grandes estados regionais da época: Ducado de Milão, Ducado de Mântua e Ducado de Parma e Piacenza, o pequeno estado foi construído com base nos princípios humanísticos de cidade ideal.

Possível ainda ver entrando na cidade, o traçado ‘alla romana’ do Cardo e Decumano, que marcam as duas principais ruas da cidade. A visita começou pelo Palazzo Giardino, onde salas de tetos de madeira trabalhadas e folheadas a ouro e grandes galerias como o Corredor Grande eram destinados a recepção de convidados.

o quer fazer Mantua

Como não poderia deixar de ser, a graciosa cidade renascentista também tem seu Palazzo Ducale, suas igrejas importantes e até o primeiro teatro da era moderna, o Teatro Olímpico, construído em 1590 e ainda hoje operativo.

O tour terminou com a visita a Sinagoga, construída no século 19 em estilo neoclássico pela comunidade hebraica da cidade, que se dedicava a atividade de estampa. No andar superior é ainda possível visitar a sala de orações, decorada com alguns móveis da época.

Todos os quatro monumentos que visitamos fazem parte de um bilhete comum de 12 euros que pode ser comprado nos escritórios da IAT na Piazza delle Armi. É possível também visitar cada monumento separadamente ao custo de 5 euros cada.

Visitar Sabbioneta é como voltar um pouco no tempo, já que a cidade representa um perfeito exemplo das teorias renascentistas da construção da cidade ideal. A cidade fica a cerca de 20km de Mântua e deve ser incluída no seu roteiro caso esteja passando por lá.

Mântua

A manhã do segundo dia era destinada ao tour guiado pela ótima Rosella pelas ruas de Mântua, cidade de arte lombarda e um dos grandes centros do Renascimento italiano nessa área.

Ainda que 10 anos tenham se passado, eu tinha nítidas lembranças da cidade, da sua Piazza delle Erbe com seu Palazzo Vecchio (em reformas depois do terremoto de 2012), Palazzo Nuovo, a Torre do Relógio e a Rotonda de San Lorenzo, igreja de arquitetura românica com planta central.

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Ali ao lado, a magnifica basílica renascentista de Sant’Andrea, maior igreja de Mântua, projetada pelo arquiteto Leon Battista Alberti, com seu interior a nave única completamente decorado e completado pela grande cúpula.

A história da construção basílica é ligada a relíquia de um vaso com o sangue de Jesus . Vários peregrinos viajavam a Mântua para venerar o objeto, ainda hoje guardado em uma cripta na igreja (não visitável).

Mas antes de visitarmos o famoso Palácio Ducal da cidade, onde eu esperava ansiosa pelo Quarto dos Noivos, a surpresa da visita para mim foi o lindíssimo Teatro Bibiena, pérola construída entre 1767-69 e no qual um ano depois da inauguração, um jovem Mozart (14 anos) tocou. Em uma carta para a esposa, Mozart pai escreve: hoje eu conheci o teatro mais lindo do mundo.

Teatro Mantua

Acho que ele tinha razão. O teatro é muito bem conservado e ainda hoje funciona para pequenos concertos e congressos. Se você estiver batendo pernas por Mântua, não deixe de dar um pulo. Vale muito a pena.

Mas quem vai a Mântua não pode pensar na cidade símbolo da família Gonzaga sem pensar em duas grandes construções: o Palazzo Ducale e o Palazzo Tè.

Palácio Ducal

Mais do que falar em palácio, podemos dizer que o complexo arquitetônico de Mântua é uma cidade palácio, já que o conjunto é enorme, composto de várias construções que foram anexadas.

A partir do século 14 foi a residência da família Bonacolsi e sucessivamente dos Gonzaga e ali moravam: o Gonzaga dominante na época, a esposa, o filho primogênito e os outros filhos legítimos até a maior idade e alguns convidados.

Corte Velha, Corte Nova, o Castelo de São Jorge são alguns dos edifícios que formam o imenso complexo. Ainda que suas salas hospedem afrescos, tapetes e decorações de grande valor, quem vai a Mântua e ao Palácio Ducal, vai para ver o famoso Quarto dos Noivos, sala afrescada por Andrea Mantegna e uma das grandes obras do Renascimento Italiano.

A entrada na sala é com hora marcada e a permanência é de 5 minutos. Depois do terremoto de 2012 que afetou as instalações do palácio, o quarto ficou fechado por 2 anos para restaurações e foi reaberto temporariamente para as visitas durante esse verão (até outubro 2014).

O que ver Mantua quarto dos noivos

A sala cúbica, usada muito provavelmente para audiências com o duque, foi pintada entre 1465-74 pelo então pintor de corte Mantegna. O tema geral é a celebração política-dinástica da inteira família Gonzaga com a ocasião da eleição de Francesco Gonzaga como cardeal.

Quatro paredes afrescadas e um teto com uma deliciosa decoração onde anjinhos debruçados olham para baixo, espiando o interior da sala.

Com só cinco minutos lá dentro, realizando um sonho de consumo artístico, não sabia se olhava ou fotografava. Mais olhei que fotografei e nem todas as fotos que mostro aqui, são minhas. Mas valeu a pena!

O passeio pelo palácio prossegue com a visita aos vários ambientes, que hospedam quadros, afrescos e uma linda coleção de tapetes produzidos na Bélgica a partir dos desenhos de Raffaello. Até eu que não sou de tapetes, fiquei encantada.

Palácio Tè

Outro grande edifício monumental da cidade, casa de relax de Federico II Gonzaga, que a usava para hospedar sua amante oficial e para suas festas refinadas.

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O grande edifício quadrado com um pátio no meio, é cheio de grandes salas afrescadas pelo seu também arquiteto, o grande Giulio Romano, que em apenas 10 anos terminou a construção. A sala do Gigante e de Amor e Psique valem a visita e completam um tour por essa pequena pérola que é a cidade de Mântua.

Confesso que Palácio Tè foi uma das minhas etapas na minha passagem por Mântua há dez anos atrás e dessa vez, com a tarde livrem preferi explorar a beira do lago que contorna a cidade.

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A caminhada foi até que longa, mas eu não tinha tempo para um passeio de barco pelas águas do Mincio, o rio das redondezas que formam os lagos em volta da cidade.

Fazer o que? Vou ter que voltar!

Gastronomia

Quem conhece a Itália sabe o quanto é variada a sua gastronomia. Viajamos pouco mais de 100 k de Milão a Mântua e os pratos típicos já mudam completamente.

Parte da nossa experiência também incluía o jantar da sexta e o almoço do sábado em restaurantes que serviam os pratos da região. O mais famoso deles é o tortellini de zucca (torteli de abóbora) quase sempre preparado na manteiga e salvia.

Uma das minhas lembranças de 10 anos atrás era o restaurante onde tínhamos almoçado, mas não me lembrava do endereço e nem do nome. Qual não foi a minha surpresa quando na sexta a noite, depois de caminhar um pouco pelas ruas da cidade que começava a encher, reconheci o L’ochina Bianca, o restaurante onde tinha estado anos atrás.

Não preciso dizer que o menú era bem variado e cada um escolheu um prato diferente: quem primeiro prato, quem segundo. Eu acabei optando por uma massa com ragú de carne de asno. Sim, eu sei, pode parecer estranho para quem não está acostumado, mas é uma daquelas coisas que você não encontra todas as semanas nos restaurantes.

onde comer Mantua restaurante

Eu sou meio chatinha para comer, apesar de ter melhorado muito nesses anos aqui, mas quis experimentar. A carne estava saborosíssima. Aprovado.

Para fechar, uma sobremesa com creme de zabaione (adoro) e o dia se concluía de maneira perfeita.

O almoço do sábado foi ao ar livre, no pátio do Giallo Zucca, onde tinham nos preparado um menú degustação com uma entrada de peixe com polenta, torteli de abóbora e risotto alla pilota, que não é um risoto como conhecemos, mas mais parecido com nosso arroz (sequinho) feito com linguiça.

restaurante Mantua onde comer

Tudo regado com um ótimo vinho branco.

Como vocês podem perceber, Mântua não decepciona na beleza e na gastronomia.

Onde ficar

Com certeza a oferta de hotéis de Mântua é bem diferenciada.

Nós fomos hóspedes do Residence In Centro que fica perto da estação de trem e em uma antiga construção eclesiástica oferece 34 apartamentos-quartos de diferentes dimensões.

O meu era bem grande, no térreo e além de 2 camas de solteiro, era equipado com cozinha, micro-ondas, mesa e cadeiras, geladeira e TV. O banheiro também tinha secador e o residence dispõe de wi-fi grátis e possibilidade de café da manhã por 6 euros (a nossa estava incluída) que inclui café, sucos, croissants, pães, geléias, iogurte, frios e bolos.

hospedagem Mantua hotel

Como chegar

Para quem está de carro, a solução de Milão é pegar a rodovia A4 em direção Veneza e depois desviar na A22 e sair em Mantona Nord.

De trem (como fizemos) a opção são os trens regionais da Trenitalia, que ligam Milão a Mântua em 2 horas. Sim, é o mesmo tempo chegar a Veneza, mas os trens regionais são mais lentos e param em todas as estações.

Mesmo assim, é uma viagem que vale muito a pena. Mais uma cidade lombarda que tem muito para te surpreender.

Fotos: Milão nas mãos – exceto vista de Sabbioneta e Palácio Té (Wikicommons)

Matera: a cidade cavada nas rochas

Milão nas mãos passa as fronteiras do Norte da Itália e lança a categoria pela Itália (encontradas no Menu Passeios) e começa com um destino surpreendente na pouco explorada região da Basilicata, onde as cores, sabores e perfumes fazem a Itália ainda mais Itália.

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Em março desse ano, começamos a pensar em um destino para as nossas férias anuais sem filhas. Estando na Europa, as possibilidades eram múltiplas e chegamos até a pensar em algo mais longe como Bangkok, até que pensei: porque uma cidade em um outro país se nós não conhecemos ainda o Sul da Itália?

Sem escolher muito, a decisão foi uma viagem pela região da Puglia (a batata da perna e salto da bota) e já que iríamos até lá, porque não estender a viagem até Matera, a linda cidade cavada na rocha, que fica na região ao lado da Puglia, a Basilicata.

Chegamos ao aeroporto de Bari (Puglia) em uma manhã do final de junho e depois de retirar o carro que alugamos e passarmos por Trani e Alberobello (que vão ficar para um outro post), chegamos no final do dia sob uma forte chuva para as nossas 2 noites em Matera.

A chegada foi pela parte nova da cidade, que fica em uma parte plana, até entrarmos pelas ruelas da parte medieval onde ficava o nosso hotel, guiados pelo GPS meio enlouquecido e darmos de cara com uma éspecie de presépio de cartão postal. Eu acho que naquele momento, arregalei os olhos e fiquei alguns segundos com a boca aberta: Matera era, como eu esperava, realmente linda… mesmo embaixo de uma chuva de verão que não dava trégua.

viagem Italia Matera

Difícil falar de Matera sem contar um pouco da sua história milenar e bastante dolorida. Patrimônio Unesco desde 1993, no pós guerra a cidade foi considerada vergonha nacional, símbolo do atraso do sul do país, por conta da degradação e das condições miseráveis de milhares de famílias que viviam nas casas grutas, quase sempre junto com os próprios animais. As condições higiênicas eram péssimas, a taxa de mortalidade altíssima e nos anos seguintes o governo evacuou 15.000 pessoas da área.

Matera se esvaziou e caiu no esquecimento por 30 anos, até que nos anos 80 uma lei nacional destina verbas para a recuperação da zona. Em 1993 o reconhecimento da Unesco e a lenta retomada do burgo com um programa de restruturações subsidiado pelo governo e Comunidade Europeia que incentiva a compra de propriedades.

A parte ‘conhecida’ da cidade é chamada I Sassi di Matera (as rochas de Matera), um conjunto de casas cavadas como grutas e algumas construídas que se dividem em duas partes: Sasso Caveoso e Sasso Barisano, de idade medieval. Mas a região de Matera já era habitada em época Paleolítica e em uma parte do grande canyon, chamada Murgia, ainda é possível visitar algumas das 150 construções rupestres transformadas em igrejas a partir no ano mil.

dicas viagem matera italia

Para não perder todos esses aspectos históricos importantíssimos quando se conhece uma cidade como essa, já tínhamos reservado uma visita guiada só para nós dois com uma guia local. Eleonora, formada em História da Arte, nos guiou literalmente para cima a para baixo pelas ruelas escorregadias de Matera (eu estava com sandálias com solas não apropriadas), explicando e mostrando as complexidades e belezas da área por cerca de três horas.

Vimos os fornos comunitários usados para assar pães, o sistema de coleta de água da chuva secular, igrejas, mas o ponto alto do tour para mim foi a visita de uma das casas museus, onde é possível imaginar em que condições viviam até 10 pessoas (mais cavalos, porcos, cabras e galinhas) até pouco mais de 50 anos atrás.

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Quase todas as casas grutas foram cavadas em profundidade, para baixo, para construir dois ou três ambientes. Os mais baixos, muito mais úmidos e frios, serviam como depósito para alimentos e vinho ou como estábulo, assim o calor dos animais ‘subia’ e esquentava os outros ambientes. Uma vida duríssima e sofrida. Tanto que a nossa guia, que tem uma avó que viveu nas grutas, nos contou que a senhora não entende como turistas de todo o mundo paguem as salgadas diárias dos hotéis da cidade para viver uma experiência que muitos materanos querem só esquecer.

Depois do tour e de um almoço rápido, o sol era forte e o calor implacável. Mesmo assim, ficamos zanzando por um centro quase deserto e de lojas fechadas que estava sendo decorado para a grande festa que os materanos fazem no dia de São Pedro, 29 de junho. A ideia era esperar para visitar o Palombaro Lungo, a enorme cisterna cavada nas rochas de Matera no século 17 e hoje localizada embaixo da praça da cidade, que perde como capacidade (pode conter até 5 milhões de litros de água) só para a cisterna de Istambul.

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As visitas (em italiano e inglês contemporaneamente) são feitas por guias locais para pequenos grupos formados no momento.

A cidade tem um Museu Arqueológico riquíssimo (dada a idade pré histórica do lugar) e o Duomo está fechado há anos para reformas, mas caminhar por Matera é um esforço físico intenso e resolvemos que nossa exploração acabaria por alí.

No dia seguinte, depois de deixar o hotel e antes de irmos embora, fomos de carro até o outro lado da Murgia (o canyon) para ver Matera de uma outra perspectiva. Ainda que nós tivéssemos mais 5 dias pela frente com um roteiro de lugares lindos para conhecer, deixei Matera com um gostinho de quero mais. Eu teria ficado na cidade, sem problema nenhum, mais uns 2 dias.

Lembrando, antes de terminar essa parte sobre a cidade, que pela peculiaridade do território e sua história milenar, Matera foi escolhida como locação de vários filmes ao longo desses anos, como o Evangelho Segundo Mateus de Pasolini (1964) e a Paixão de Cristo de Mel Gibson (2004), filme que ajudou a despertar o interesse do mundo pela cidade.

GASTRONOMIA

Ninguém discorda que a gastronomia é um dos pilares da fama da Itália pelo mundo e a do sul do país não decepciona. Feita de produtos locais e frescos, encontramos por lá coisas nunca provadas no mais gélido Norte.

Na noite que chegamos, uma segunda, alguns restaurantes estavam fechados e acabamos decidindo por um restaurante perto do hotel, o Restaurante Francesca,  uma construção cavada como tantas outras mas com interior mais moderno, onde acabamos provando dois tipos de massa com molhos aparentemente simples, mas deliciosos. Tudo acompanhado por um vinho local.

dicas matera restaurante

No dia seguinte, depois do nosso tour, a ideia era conhecer as famosas ‘laterias’ de algumas cidades do sul. Elas são como um açougue/mercearia com mesas e cadeiras onde você escolhe um corte de carne e eles preparam para você na hora.

Alí no centro optamos pela La Latteria, ambiente simples e autêntico onde comemos carne. Eu, lembrando da dica da minha guia, escolhi linguiça pezzente, um produto Slow Food feito de carne de porcos criados em estado selvagem.

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A noite do segundo dia foi regada a vinho e risadas em um happy hour com a brasileira Cris Bergamini, que vive em Matera e que me ‘achou’ no Instagram quando postei uma foto da cidade. Da série ‘as maravilhosas pessoas que encontro através do blog’.

HOSPEDAGEM

Matera tem uma rede hoteleira incrível e diversificada, já que grande parte das construções da cidade medieval foram convertidas em hotéis, bed and breakfast e albergues.

Tínhamos decidido que a nossa hospedagem em Matera seria um dos pontos altos da viagem (além das paisagens e lugares visitados). A escolha ficou por conta do meticuloso (e romântico) marido, que depois de dias e dias de pesquisa, acabou reservando duas noites no exclusivo Sextantio Le Grotte della Civita

O hotel faz parte do projeto de um empresário italo-sueco (ele tem outro na região de Abruzzo) de recuperação de burgos e áreas abandonadas e em Matera ele é composto de cerca de 20 quartos-grutas concentrados em uma pequena área do Sasso Barisano onde também ficavam a recepção e a sala de café da manhã, montada onde antes era uma igreja.

dicas hoteis matera italia

A proposta do hotel é de uma intervenção mínima nas grutas e os quartos, bem peculiares, não tem televisão, frigobar ou telefone. Você está alí para apreciar Matera e isso não inclui nem a ideia de assistir o jornal da noite e suas notícias pouco animadoras.

A nossa suíte tinha cerca de 140 mt² divididos em 3 ambientes: o quarto, um banheiro com chuveiro e  pia onde antes era um estábulo (a pia era uma manjedoura  e os ganchos nas paredes eram usados para amarrar os cavalos) e a cenográfica sala de banho, onde uma banheira de design reinava no meio, rodeadas de velas. Todos os produtos (sabonetes e shampoos) eram orgânicos e os móveis também eram em linha com o ambiente: todos antigos e de madeira.

dicas hoteis italia matera

Entrando no quarto-gruta, se sentia a umidade e um leve cheiro de molhado, mas um grandíssimo desumidificador dava conta do recado. Mesmo assim, em pleno final de junho, dormimos de cobertor.

Os quartos da parte de baixo do hotel tem vista (saindo na varanda) para a espetacular Murgia de Matera, uma espécie de canyon atravessada por um longo riacho. É do outro lado que ficam a maior parte das igrejas rupestres da região, que acabamos deixando para visitar em uma outra ocasião (as visitas são feitas só com guias autorizados).

O café da manhã do hotel também era a altura de toda atmosfera: mousse de ricota, mozzarelas frescas, foccacias e bolos caseiros, frutas e pães da região servidos em grande mesas de madeira dentro da igreja-gruta.

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Se Matera em si já é uma experiência intensa, a hospedagem no Sextatio foi uma escolha perfeita para coroar a nossa estadia na cidade.

Outros hotéis na cidade propõe quartos dentro das grutas cavadas nas rochas materenses, como o Hotel in Pietra, propriedade da brasileira Cris Bergamini e seu marido.

Na noite que conversamos e rimos muito, fui conhecer a estrutura, elegantemente decorada por Cris com uma mistura de móveis locais e brasileiros. A minha paixão foi por um quarto com um terraço com vista para as rochas de Matera.

hotel em Matera Italia

Já que resolvi que mais cedo ou mais tarde volto a Matera, pelo menos o próximo quarto já está escolhido.

Para quem é adepto dos albergues da juventude a opção é a Fondazione Le Monacelle, que dispõe de 12 quartos com ar condicionado, café da manhã incluído por preços mais modestos do que as outras estruturas hoteleiras da cidade.

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Para reservar o Hotel In Pietra, clique aqui

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Para pesquisar e reservar outros hotéis em Matera com Booking, clique aqui

COMO CHEGAR

A região da Basilicata não tem aeroporto e a melhor maneira é chegar até a Puglia. Nós pegamos um vôo Milão-Bari e lá alugamos um carro para rodarmos pela região por 6 dias.

É possível também chegando de avião em Bari pegar um trem ou shuttle até Matera.

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