Milão é uma segunda Paris

Amantes da cidade luz, muita calma. Começo explicando que a frase do título não é minha, que foi escrita há séculos atrás em uma carta e que talvez fosse até verdade no século 19 (época da carta).

Milão é uma segunda Paris, é o titulo de um gracioso e pequeno livro que comprei há alguns anos (Sellerio Editore, 2007) e que por sua vez tirou o título de uma parte da carta escrita por Oscar Wilde à sua mãe  em 1875. Era a época dos Grandes Tours e os europeus que podiam, embarcavam em longas viagens pelo continente e muitos deles, vindo da Inglaterra, passavam por Milão.

O livro é uma compilação de cartas e trechos de diários de viajantes ilustres que passaram pela cidade a caminho de metas muitas mais famosas e desejadas, como Veneza, Florença, as ilhas do Sul da Itália, os Alpes Suíços, Alemanha.

Lendo alguns trechos, descobrimos nem todos estavam de acordo que Milão tivesse pouco a oferecer. Os interesses desses viajantes cultos eram os mais variados, mas a maior parte era atraída pela centenária Biblioteca Ambrosiana, a Pinacoteca de Brera, a (naquela época) deteriorada Última Ceia e porque não, os espetáculos do Teatro alla Scala e os lotados e alegres cafés milaneses.

No que diz respeito ao Duomo, a catedral milanesa encantava alguns e causava aversão em outros.

duomo-800

Mas já naquela época, nomes como Henry James, descrevia a cidade como uma senhora pouco vistosa, de ‘discrição nórdica’, que olhada com olhos atentos, reserva surpresas prazerosas.

Nesse sentido a cidade parece não ter mudado muito, já que continua se revelando só para os viajantes mais curiosos e preparados. Por outro lado, está deixando sempre mais de ser só uma cidade de passagem para ser uma meta escolhida e apreciada pelos turistas.

Porque Milão não é mais uma segunda Paris. Milão é Milão.

‘ Milão é uma segunda Paris. Maravilhosos pórticos e galerias; toda a cidade é de pedra branca e dourada.’ (Oscar Wilde, 1875)

‘ Chegamos em Milão abaixo de uma chuva torrencial. Hoje de manhã fomos a catedral. Fora é enormemente elaborada com agulhas e estátuas terrivelmente desproporcionais ao resto da construção…A catedral é um fiasco. Fora o desenho é absurdo e escassamente artístico…mas é um fiasco imponente e gigantesco. ‘ (Oscar Wilde, 1875)

‘… essa catedral é uma surpreendente obra de arte. É feita de mármore branco, cortada em pináculos de imensa altura, trabalhos com a máxima delicadeza e cheia de esculturas. ‘ (Percy Shelley, 1818)

‘ … entre as muitas coisas de Milão, me surpreendeu particularmente a correspondência (as cartas de amor mais lindas do mundo) entre Lucrezia Borgia e o Cardeal Bembo e uma mecha dos cabelos loiros dela, expostos na Biblioteca Ambrosiana, onde fui várias vezes para admira-los. ‘ (Byron, 1816)

scala_800

‘Não há nada em Milão que impressione à primeira vista, se não a sua grandeza e as numerosas igrejas… Depois do almoço, fomos a Catedral. Depois de termos passados por uma rua estreita, entramos numa praça larga e vimos o magnifico edifício na nossa frente. Não posso descrever o nosso estupor à primeira vista da catedral…senti que era um edifício construído mais para a glória dos reinantes, do que para venerar o Criador. ‘ (Dorothy Wordsworth, 1820)

‘ Fomos também ao Convento de Santa Maria delle Grazie para ver a famosíssima pintura da Última Ceia de Leonardo Da Vinci. É uma pintura no muro de uma das extremidades do refeitório, que era usado, nos tempos de Napoleão, como depósito militar. É miraculoso que essa bela peça de arte não tenha sido completamente arruinada durante aqueles tempos de indisciplina militar e total falta de resguardo por todas as coisas sagradas. Pouco expert de arte que sou, não vou me meter a descrever essa pintura, que tocou profundamente os meus sentimentos e a minha imaginação mais do que qualquer outro que eu tenha visto, ainda que algum dos personagens estejam completamente arruinados pela umidade‘ (Dorothy Wordsworth, 1820)

‘ Depois visitamos outros lugares da cidade de Milão, que é realmente uma bela cidade, mesmo não sendo assim tipicamente italiana. O Corso (hoje, Corso Venezia), onde a nobreza vai e vem nas carruagens, é uma bela alameda. ‘ (Charles Dickens, 1845)

1 responder
  1. Luciana Rodrigues says:

    Será que acho esse livro? Fantástico! Milão me conquistou pela primeira vez. Vindo de uma cidade “vetusta”, me apaixonei pelo seu ar europeu, sofisticado, reservado. Nunca a havia comparado a Paris, cidade que eu gosto, mas que nem morro de paixão! Obrigada por esse post, Magê

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *