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O quadrilátero do silêncio em Milão

Sem dúvida nenhuma, o quadrilátero mais conhecido de Milão é o chamado Quadrilátero da Moda ou Quadrilátero de Ouro, as quatro ruas mais famosas da cidade (Via Manzoni, Via Montenapoleone, Via della Spiga e Via Sant’Andrea) que reúnem as lojas das mais badaladas marcas mundiais.

Mas em Milão existe um outro quadrilátero, muito menos famoso e pouco conhecido pelos turistas e até locais, que é completamente o oposto ao seu badalado “primo”: é o Quadrilátero do Silêncio.

Essa área que fica a dois passos do centro de Milão é assim chamada pela tranquilidade de suas ruas, praticamente privadas de bares, restaurantes e lojas badaladas. É alí que estáo reunidos os melhores e mais belos exemplos da arquitetura Liberty em Milão, estilo muito em voga nos anos 10 do século 20 e também de estilos das décadas posteriores, constituindo assim, uma espécie de “albúm” da história da arquitetura milanesa do século passado. Só para entender melhor, o estilo aqui chamado de Liberty, é o que os franceses chamam de art-nouveau.

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O arco de Via Salvini – Foto Geobia

O Quadrilátero do Silêncio (para mim) tem uma entrada oficial: o arco que se abre em Corso Venezia, à frente do Parque Jardins Públicos e que pegando Via Salvini vai dar em uma “outra dimensão”: a deliciosa Praça Duse. Já alí, vale a pena reparar nos prédios que circundam a praça com suas cariátides. A traficada avenida está a poucos passos, mas você já começa a gozar da tranquilidade e silêncio das ruas.

Edifício na Praça Duse - Foto Friedrichstrasse

Edifício na Praça Duse – Foto Friedrichstrasse

A partir dalí é uma sucessão de surpresas como: Palácio Fidia (1929), Palácio Berri Meregalli (1911), Casa Tensi (1907), a belíssima Villa Necchi Campiglio (1932) e seu jardim com piscina e cafeteria, perfeitos para uma pausa. A vila é uma das casas museus de Milão e é visitável com um tour guiado feito por voluntários, como contei nesse post.

casa tensi milao

Em Via dei Capuccini vale conferir a surpresa que nos reserva os jardins da Villa Invernizzi: uma colônia de flamingos rosas em pleno centro da cidade.

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Algumas poucas ruas mais em direção a periferia ficam outros exemplos famosos de construções , como o renomado Hotel Diana, de 1908 e hoje parte da rede Sheraton, onde o ritual do aperitivo no seu belo jardim é disputadíssimo e os prédios com varandas e escadas em ferro batido e decorações em azulejos, como as famosas Casa Galimberti (1913) e a Casa Guazzoni em Via Malpighi.

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Casa Guazzoni MIlao

O Quadrilátero do Silêncio é um lugar para se conhecer a pé, com calma e olhando para cima. Se você tem alguns dias por aqui e quer fazer um passeio diferente em Milão, eu aconselho conhecer esse cantinho especial e mágico da cidade.

Para chegar até o quadrilátero do silêncio, você pode descer nas estações (linha vermelha) de Porta Venezia (e começar por Via Piave e Malpighi) ou Palestro (e começar pelo arco di Via Salvini). Abaixo os nomes dos principais edifícos, os endereços e um mapa da áera.

Palácio Fidia – Via Luigi Melegari 2
Palácio Berri Meregalli – Via Cappuccini 8
Villa Necchi Campiglio – Via Mozart 12-14
Villa Invernizzi – Via dei Capuccini
Casa Tenzi –  Via Vivaio 4 esquina Via Maggiolini
Hotel Diana – Viale Piave 42
Casa Galimberti e Casa Guazzoni – Via Malpighi 3 e 12

Fotos: (onde não especificado) Milão nas mãos

Detalhes e segredos dos palácios de Milão

Esse é um post exclusivamente fotográfico, já que do evento dos Pátios Abertos dos palácios de Milão, eu já falei aqui em um outro post recente. No último domingo, 26 de maio, 10 palácios na área e Corso Venezia estavam com seus pátios e jardins abertos gratuitamente ao público para visitação, já que a grande maioria são residências ou sedes de órgãos administrativos.

Mais uma vez, uma prova, para quem ainda não conhece a cidade ou não acredita, que Milão é uma cidade para se descobrir nos interiores, de belezas escondidas e fachadas austeras. Aqui abaixo, uma mistura de pátios e jardins, de palácios de diferentes épocas, que vão do Renascimento ao século 19.

 

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Fotos: Milão nas mãos

Vila Necchi Campiglio

Desde que comecei a escrever o blog, há poucos meses atrás, fiquei pensando em esconder uma das maravilhas dessa cidade, minha menina dos olhos, lugar pelo qual me encantei  desde a primeira vez que visitei.

Achei que podia ter esse direito de esconder essa  pérola, de ficar com esse segredo pra mim, preservar esse cantinho da cidade pouco visitados pelos turistas estrangeiros e que é um raro exemplo de casa burguesa do início dos anos 30 em Milão.

Mas depois lembrei que meu compromisso é gritar para todos os brasileiros o quanto de maravilhoso essa cidade tem à oferecer além das badaladas vitrines e resolvi que deveria contar para vocês da Villa Necchi Campiglio, que hoje faz parte do circuito das casas-museus de Milão.

vila necchi campiglio MIlao

Conta a lenda que a família Necchi Campiglio, ricos industriais da área de Varese, queria comprar um terreno para construir um mansão no centro de Milão. Em uma noite de forte névoa, voltando de um concerto no Teatro Scala, se perderam e foram parar em uma rua onde um grande terreno tinha uma placa de vende-se.

Construída entre 1932 e 1935 pelo arquiteto milanês Piero Portaluppi sem limite de orçamento, a mansão para a época era o que existia de mais moderno, exemplo do recém-nascido racionalismo italiano. E foi essa modernidade (que hoje é uma modernidade retrô) que mais me encantou na casa.

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A mansão é uma obra de arte em si e o interior é enriquecido com inúmeras pinturas, escultura e móveis (os melhores são os desenhados pelo arquiteto da casa) comprados pela família ao longo dos anos na Itália e em diversas partes do mundo.  Tudo rodeado por um enorme jardim com piscina (uma das poucas na época na cidade) e um campo de tênis.

São 4 andares (o subsolo, onde ficavam as cozinhas não estava aberto para visitas) com a decoração intacta, como se seus três habitantes (Angelo Necchi, Gigina Campiglio e a irmã Nedda Campiglio) tivessem saído e fossem voltar a qualquer momento.

No térreo ficam o hall, o escritório, biblioteca, sala de estar, copa,  sala de  jantar e uma maravilhosa varanda toda de vidro que,  para o lado que dá para a casa, é dotada de duas grandes portas blindadas de ferro desenhadas por Portaluppi que são design puro. Meu cantinho preferido na mansão.

necchi campiglio MIlao

No andar superior um corredor feito de portas leva aos quartos do casal, de Nedda  e aos armários que ainda hoje mostram  as luxuosas roupas e acessórios das irmãs Campiglio. Até os banheiros valem a visita. No segundo andar também ficavam os quartos dos hóspedes e  das duas camareiras responsáveis pelos guarda-roupas das irmãs.

corredor

O último andar, quase um grande sótão, abrigava os aposentos e banheiros dos empregados domésticos e uma sala e hoje é usado como espaço para exposições temporárias.

Os ambientes mais característicos e os meus preferidos são os que mantiveram o estilo racionalista de Portaluppi, porque uma vez terminada a casa, mesmo o culto casal Nacchi Campiglio teve dificuldades em aceitar o estilo troppo moderno para a época e posteriormente chamaram um outro arquiteto para nobilizar alguns ambientes. O resultado, na minha opinião, não é o máximo.

A casa foi habitada por Gigina até 2001 e depois da sua morte foi doada ao Fondo per l’Ambiente Italiano, que administra a mansão e propõe visitas guiadas (também em inglês) diariamente.

O belo jardim acolhe a charmosa cafeteria, com entrada independente para quem não quer visitar a mansão, que é perfeita para um café ou um drink nas manhãs e tarde de primavera e verão em Milão.

jardim necchi campiglio milao

Por que uma pérola assim, em pleno centro , não é toda cidade que tem.

Villa Necchi Campiglio
 Via Mozart 14
De quarta à domingo das 10 às 18
Ingresso: 8 euros (inteiro) 4 euros (crianças de 4 a 12 anos)
Visitas guiadas em italiano e inglês (segundo a disponibilidade)
 
 

Os pátios e jardins secretos de Milão

O evento milanês “Cortili Aperti”, que quer dizer pátios abertos, acontece todos os anos na primavera e é um dos meus eventos favoritos na cidade.

Ele é organizado por uma associação que administra as casas histórica do país e uma vez por ano, aqui em Milão, abre as casas e palácios à visitação, permitindo a entrada aos pátios e jardins posteriores que muitas vezes não são acessíveis aos milaneses, por se tratarem de residências privadas.

O que tem de tão especial em um evento como esse?

Digamos que atrás da austera arquitetura dos palácios milaneses, se escondem cenários de belezas às vezes impensáveis para uma cidade como essa. Até o início do século 20, com o advento do estilo arquitetônico liberty, o costume de ostentar a riqueza nas fachadas das casas, não existia. Os ricos e nobres eram poucos e todos sabiam quem eram. Com isso, toda a concentração de embelezamento das residências eram situadas na parte interna, em forma de pátios ou na parte posterior, em forma de jardins.

Com isso, Milão é repleta de palácios nas áreas do Quadrilátero da Moda, Via Senato, Corso di Porta Venezia, Corso Magenta com fachadas anônimas e recheados de belezas. Tem quem diga que os pátios serviam para estacionar as carruagens dos nobres e burgueses, por isso também quase sempre os portões são bem largos.

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Fachada da Casa degli Atellani

Em abril desse ano, eu tive uma belíssima surpresa durante o Fuori Salone, quando passando pelo Corso Magenta, uma casa de origem renascentista a Casa degli Attelani, hoje de propriedade privada, estava aberta com uma exposição. Entrei para ver o pátio interno, que não é particularmente bonito, mas de relevância histórica. A exposição era dentro de uma das salas e eu entrei e atravessei um pequeno hall. Meus olhos não acreditaram quando eu ví o imenso e maravilhoso jardim atrás. Eu não sabia da existência dele, nunca tinha ouvido falar.

jardim atellani milao

O jardim posterior da Casa degli Atellani

Como o tal palácio fica na frente da Santa Ceia, diz a lenda que Leonardo Da Vinci tivesse recebido como pagamento um pedaço de terreno com vinhedos alí por aqueles lados.

Ano passado, o evento Cortili Aperti foi concentrado na área do Quadrilátero da Moda, abrindo pátios em Via Manzoni, Montenapoleone, Via Santo Spirito, Via Borgospesso.

O austéro Palácio Borromeo d'Adda

O austero Palácio Borromeo d’Adda

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Pátio do Palácio Borromeo d’Adda

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Jardim do Palácio Borromeo d’Adda

Esse ano será tudo concentrado na mais famosa avenida do século 18, Corso Venezia, onde a nobreza da corte austríaca, que então governava Milão, construiu suas residências.

Os pátios dos palácios de Milão, são para mim, umas das pérolas dessa cidade junto com os claustros das igrejas milanesas, mas isso é assunto para um outro post.

 

O Castelo Sforzesco de Milão

O Castelo Sforzesco de Milão faz parte das metas clássicas dos turistas e se encontra na extremidade da grande área de pedestres do centro da cidade.

Ele tem origem em 1360/1370 quando em Milão reinava a família Visconti. Depois de acontecimentos alternados, entre eles uma destruição, o castelo foi ampliado e assumiu a forma atual durante os últimos 20 anos do século 15, quando Milão era já um ducado e governado por Ludovico il Moro (membro da família Sforza, de onde o castelo pega o nome). Milão naquela época era cheia de obras: canalizaçoes, plantações de arroz, seda e fortificações.

 

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A corte milanesa naqueles anos era esplêndida, no ápice do Renascimento, repleta de festas e banquetes, música e bailes. Frequentada por poetas e artista, entre eles Donato Bramante e Leonardo da Vinci, que em Milão deixou uma marca incancelável, pintando a Santa Ceia, encomendada  próprio por Ludovico Il Moro.

Com a queda do ducado sforzesco e a invasão dos franceses, decaiu também o castelo, que foi utilizado nos séculos sucessivos e com várias transformações, só para funções essencialmente militares.

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A estrutura que vemos hoje é resultado de restaurações do final do século 19 e ínicio do século 20, que tentaram reformar o castelo nas formas que ele tinha durante o seu  máximo  esplendor nos anos do período sforzesco. O Castelo foi restituído à cidade e destinado a acolher museus e bibliotecas, assumindo a função cultural e pública que ainda hoje o caracterizam.

Com isso, podemos dizer que o castelo é um museu de museus: entre coleções, museus, bibliotecas e arquivos, hospeda 14 instituições que contém obras de peculiar preciosidade. Para visitar tudo, precisaria de dias. Próprio por isso, segundo a vontade e tempo, se pode decidir de não visitar nenhuma: o castelo vale uma visita só para se refrescar com os jatos da fonte que fica na entrada, admirar a sua estrutura esterna, os pátios internos e depois ir descansar no Parque Sempione, que fica atrás da fortificação.

fonte castelo de milao

Mas os turistas interessados em arte não se deixam escaparr a oportunidade de uma visita aos seus inúmeros museus. O mais famoso e frequentado é o Museu de Arte Antiga, situado na Corte Ducal. É alí, que se pode admirar uma das poucas obras que Da Vinci deixou em Milão, além da Santa Ceia: a Sala delle Asse.

A escultura Pietà Rondanini, de Michelangelo, que ficava exposta no Museu de Arte Antiga, agora está em um lugar só para ela, dentro da Enfermaria Espanhola da Praça das Armas (o bilhete é separado).

O museu também vale como dica de programa para a criançada em Milão, já que abriga uma coleção de armaduras e armas da Milão do século 13 e 14.

A parte superior da corte hospeda o Museu do Móvel  e a sua nova montagem apresenta uma interessante combinação entre design moderno e móveis de época. É alí também que fica a Pinacoteca do castelo que expõe quadros do século 13 ao século 16, de artistas ativos em Milão e na região da Lombardia.

Nos subterrâneos ficam os pequenos museus da Pré-História e Egito,  interessante para quem quer visitar sarcófagos e múmias.

O castelo abriga ainda o Museu das Artes Decorativas, que documenta o trabalho de  ourives, entalhadores, ceramistas e tecelões entre o ano 1000 e 1700 e o Museu dos Instrumentos Musicais, uma das coleções mais importantes da Europa e que abriga peças únicas à nível mundial.

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Apesar da montagem das exposições em alguns museus sentirem o peso da idade e precisarem de uma renovada, eu aconselho muito uma visita à alguns deles, já que eles são uma das coisas que essa cidade tem de melhor como história e cultura. O custo do bilhete é baixo e vale para a visita à todos os museus do complexo.

Fotos: Milão nas mãos e WikiCommons

OBS: Post atualizado em 11/05/2015

Castelo Sforzesco
Piazza Castello, 3
aberto todos os dias para visitas das 7 às 19.30
 
Pietà Rondanini – Praça das Armas (Castelo Sforzesco)
De terça a domingo das 9h às 17.30h (última entrada às 17h)
Bilheterias abertas até as 16h30
Bilhete Inteiro: 5 euros – Meia entrada: 3 euros (para maiores de 65 anos com documento)
 
Os museus do Castelo Sforzesco

De terça a domingo das 9h às 17.30h (última entrada às 17h)
Bilheterias abertas até as 16h30

Bilhete Inteiro: 5 euros – Meia entrada: 3 euros (para maiores de 65 anos com documento)

 
Grátis: menores de 18 anos –  às 1° e 3° terças-feiras do mês depois das 14h e todo 1° domingo do mês
 
OBS: o bilhete de 5 euros dá direito a todos os museus do castelo e a Pietà Rondanini