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Milão: cidade de cariátides e telamones

Eu já comentei aqui que Milão não é uma cidade de beleza óbvia, escancarada, para turistas principiantes e desavisados. Eu digo turista porque esse é também um blog de turismo, mas mesmo muitos habitantes não sabem ver Milão com bons e educados olhos.

É uma cidade onde você tem que caminhar prestando atenção nos portões abertos de muitos palácios para ver se tem a sorte de descobrir os mais belos pátios da Itália (prometo um post sobre eles), caminhar olhando para cima, quando possível, para admirar seus jardins suspensos. Mas uma das coisas que mais adoro aqui, são essas quantidades infinitas de homen e mulheres “encostados” nas fachadas de palácios mais ou menos históricos das cidades e até das igrejas, como o Duomo. Quem são? As famosas cariátides e telamones.

estatua cariatide milao

Detalhe de uma cariátide em Milão

Cariátides são as esculturas utilizadas como sustentação, estrutural ou decorativa em uma construção. Seus equivalentes masculinos são conhecidos como telamones, chamados assim porque lembram Atlante, que na mitologia grega sustentava os pilastres do céu.

Utilizadas na antiga Grécia, são retomadas na arquitetura romanica italiana e, posteriormente nos séculos 16 e 17.

Estatua Duomo Milao

Telamone na fachada do Duomo

Meu palácio preferido em Milão é o Palazzo degli Omenoni (que faz parte das fotos do cabeçalho do blog), que significa Palácio dos Homenzarões e foi a casa de um excêntrico escultor do século 19, Leone Leoni. A residência deu nome a rua (Via degli Omenoni) e eu, todas as vezes que estou por perto, dou uma desviada e passo pela frente. A sensação de que aqueles 8 homenzarões estão alí  te seguindo e por que não, te cumprimentando, é impagável.

Casa Omenoni Milao

A famosa Casa Omenoni em Milão

Mas Milão tem várias e vários cariatides e telamones, incluindo as da famosa Duomo de Milão. Mas as mais famosas e que fizeram história na cidade, foram as duas estátuas criadas para o Palazzo Castiglioni em Milão, no ínicio do século 20 em plena sintonia com o novo estilo arquitetônico, o Liberty.

A cidade não estava pronta. Quando em 1903 foram retirados os andaimes da frente do palácio, a opinião pública se escandalizou com as duas estátuas que representavam duas graciosas donzelas desprovidas praticamente das roupas. O escândalo não impediu que os milaneses apelidassem o palácio de “Casa do Bumbum”. De qualquer maneira, as estátuas foram retiradas e 10 anos depois foram colocadas em um outro edifício, Villa Faccanoni, mas de localização menos central. Os bumbuns ainda estão lá.

Cariatides em Milao

As escandalosas cariátides do Palácio Castiglioni

Por isso, se você está passeando tranquilo em Milão, a dica é não olhar só as vitrines. A cidade oferece muito mais do que isso. Se delicie com as cariátides e telamones milaneses e eleja os seus preferidos.

A cidade que sobe

Como todas as cidades européias e, diferente do que aconteceu nas grande metrópolis sul-americanas, Milão durante o século XX se desenvolveu basicamente em horizontal.

As poucas construções altas da cidade são dos anos 50-60 e por anos nada mais foi construído. Os 2 símbolos verticais da cidade, a Torre Velasca e o aranha-céu Pirelli foram construídos nos anos do pós-guerra.

De repente, com a aproximação do século XXI, começaram, entre o entusiasmo de alguns e o ceticismo de outros, grande projetos que estão “equipando” Milão de arranhas-céus modernos e funcionais, inseridos em um contexto de novos parques urbanos e ilhas de pedestres. Os projetos principais (City Life e Porta Nuova) reurbanizam duas áreas centrais e, visto a altura dos edifícios, não podem fugir à atenção de que chega na cidade.

A área ao Norte do anel central de Milão é, de fato, un grande canteiro e os milaneses encontram-se diante de algo que não estão acostumados: uma cidade que sobe freneticamente dia após dia.

Alguns edifícios, como a nova sede da Região Lombardia já estão prontos, outros, como as torres Pelli estão em fase final de conclusão e outros ainda são só projetos. Se a próxima Expo 2015 deveria acelerar os canteiros, a atual crise econômica poderia por sua vez, atrasá-los. De qualquer maneira pelos próximos 5 anos os guindastes e obviamente os novos edifícios dominarão o skyline da cidade.

Para ver como os milaneses aceitarão estes novos milhões de metros cúbicos abitáveis temos que esperar ainda alguns anos, quando os canteiros terminarem e se descobrirá se as novas áreas conseguirão se integrar com as áreas ao redor ou se resterão simples centros direcionais cheios de dia e vazios a noite.

La città sale – Umberto Boccioni -1910 – MoMA New York.

Mas uma coisa é certa: os guindastes que se movem, os arranhas-céus que sobem e o dinamismo que caracterizam os canteiros teriam, com certeza, encantado Umberto Boccioni, renomado artista do movimento futurista italiano do ínicio do século XX. A sua primeira obra futurista é intitulada “La città che sale” (A cidade que sobe).