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21° Triennale de Design e Arquitetura em Milão

Com o tema Século 21: design após design, a Trienal de Arquitetura e Design desse ano, que acontece entre 2 de abril e 12 de setembro, promete ser uma das maiores já realizada e essa edição vai passar os confins do Palácio da Arte e será realizada em outros 11 espaços espalhados pela cidade como HangarBicocca, Mudec, Museu da Ciência e Tecnologia, Politecnico e até a Villa Reale de Monza.

Temas como as novas fronteiras da globalização, as mudanças urbanas e urbanísticas, a relação entre o artesanato e as novas tecnologias, o papel da mulher no design, entre outros, serão abordados nas 20 mostras concebidas pela Comissão Científica da Triennale em colaboração com outros 9 arquitetos e artistas.

O design e Milão

Milão conquistou nas últimas décadas a fama de capital da moda e do design. Apesar da publicidade nas mídias, o conceito de design italiano permanece muitas vezes abstrato: se sabe que existe, mas não se sabe bem o que é. Na verdade, os nossos designers levaram para o mundo, inovações que entraram na vida cotidiana, muitas vezes melhorando-a.

luminaria arco

Aqui alguns exemplos, na verdade os meus preferidos, de inovações criadas por designer milaneses, sejam de nascimento ou por escolha.

A cadeira em policarbonato Kartell

Difícil de usar na moldagem, até os anos 90 o policarbonato não era utilizado no mundo dos móveis. Depois de anos de pesquisa a empresa milanesa Kartell consegue dar vida a um produto de design industrial: La Marie, a primeira cadeira no mundo realizada em policarbonato toma forma em 1999 com desenho de Phillipe Starck. Não precisa nem dizer que outros produtos de sucesso em policarbonato foram produzidos pela Kartell e outras empresas com sucesso nesses últimos 15 anos.

cadeira Kartell

Para quem quiser conferir esse ícone, é só dar uma passadinha na nova Eataly Milão para o almoço ou aperitivo para se sentar em uma cadeira Kartell.

O blazer desestruturado de Giorgio Armani

A produção de Armani abrange vários tipo e modelos de roupas, mas é com o blazer que o estilista revoluciona nos anos 80 o design: os suportes internos são removidos, os botões são mudados de lugar e as proporções tradicionais são modificadas. Nasce assim o blazer desestruturado, símbolo absoluto do seu estilo.

blazer Armani

O blazer vira protagonista do tailleur de corte masculino que Giorgio Armani desenha para as mulheres. Com tonalidades de cinza misturado com bege, sem cores fortes ou estampas floreais, o estilo Armani significa para milhares de mulheres uma elegância descontraída e finalmente autônoma.

Hoje esse estilo é a normalidade, mas antes de Armani não era.

A luminária Arco de Floss

Os irmãos Castiglioni, dupla de arquitetos milaneses, criaram para a Floss em 1962 essa luminária que até hoje é vendida da sua versão original e está entre umas das mais copiadas.

Ainda semana passada, em um passeio pelos subsolos da La Rinascente que hospeda o Desig Market, eu suspirava em frente de uma enquanto segurava a etiqueta com o preço. Confesso que acho ela linda, porque gosto daquele design datado mas que mais de 50 anos depois, ainda é atual.

luminaria floss

O conceito principal do Arco é a sua versatilidade e praticidade, que nasce da ideia de ter um ponto de luz efetivamente suspenso em cima do lugar desejado, que pode ser uma mesa, escrivaninha ou um livro, sem ter que estar vinculado a um sistema a suspensão com um ponto fixo.

Arco ainda hoje é o protótipo de inúmeras luminárias produzidas por outras marcas e baseadas no mesmo conceito.

Concluo esse brevíssimo percurso no design milanês com um nome que nos deixou recentemente e falando de design de interiores.

Design de interiores: Musée d’Orsay

Na ocasião da transformação de velha estação ferrovíaria em museu, é Gae Aulenti que projeta os espaços internos do percurso expositivo do Musée d’Orsay.

É ela que opta pela pedra calcarea clara, que dá luminosidade as salas, aproveitando ao máximo a luz que entre pela abóboda em vidro e ferro e que ao mesmo tempo rende o espaço um lindo conjunto.

design interiores Milão

Podemos dizer que quando admiramos os impressionistas em Paris, atrás de Cezanne e Renoir existe literalmente a milanesíssima Gae Aulenti.

Fotos: wikicommons e internet

Milão, a moda e o design

Barcelona, Milão, Porto. O que essas cidades tem em comum?

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Barcelona- Milão-Porto, que todas as quinta de Abril vai mostrar um pouco das coisas em comum dessas 3 grandes cidades europeias, pontos de referências em seus países, com a participação de Cristina Rosa do blog  Sol de Barcelona e Rita Branco do blog O Porto Encanta.

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Séculos de história como capital do Império Romano, inúmeras igrejas de grande valor artístico e cultural, a Santa Ceia, os códigos de Leonardo Da Vinci….a lista é grande, mas quando alguém pensa em Milão, pensa na moda e no design.

Impossível negar a importância e a qualidade da criatividade milanesa nesses dois setores, importantes seja industrialmente, seja economicamente para a cidade.

A moda pret-a-porter italiana como a conhecemos hoje, começa a se desenvolver nos anos 80, quando o eixo de produção e desfiles passa de Florença a Milão. A transformação foi inevitável já que na grande década,  os yuppies e publicitários italianos estavam em Milão e em volta deles começaram a gravitar as mentes criativas da moda italiana e milanesa.

Richard Gere no filme Gigôlo Americano

Richard Gere no filme Gigôlo Americano

Armani, Versace, Krizia, Moschino, Prada (que é mais antiga), Dolce & Gabbana, só para citar as marcas mais conhecidas, abrem suas lojas e shows rooms na cidade, e a moda italiana ganha as páginas de revistas de moda americanas e até o cinema, com Giorgio Armani que veste um jovem Richard Gere em Gigôlo Americano.

Dos anos 80 para cá, o setor cresceu, se estabeleceu, todas essas marcas viraram pequenos impérios e referência no mundo, de qualidade e elegância.

A loja Armani no Quadrilátero da Moda

A loja Armani no Quadrilátero da Moda

Difícil desassociar a cidade da idéia de moda, ainda mais quando você dá uma voltinha nas quatro ruas mais famosas do mundo da moda, que formam o chamado Quadrilátero da Moda. Uma verdadeira concentração de marcas famosas, italianas e não, que são um deleite para os olhos e uma perdição para o orçamento.

Já o design milanês começa a sua sólida história no  início do século 20, quando os mais famosos arquitetos, formados no Politécnico de Milão, começam a trabalhar com design industrial para grandes fábricas de louças e móveis.  Giò Ponti, Gae Aulenti, Achille Castiglioni, Piero Fornasetti, sobre o qual contamos nesse post, desenham objetos de decoração que se tornarão ícones de modernidade e do Italian Style, como a famosa luminária  (que eu a-do-ro) Arco desenhada por Castiglioni nos anos 60.

Luminária Arco, de Achille Castiglioni

Luminária Arco, de Achille Castiglioni

Esses são os anos também de movimentos artísticos locais como o Futurismo e o movimento Novecento, os anos da arquitetura racionalista italiana, da fundação da revista Domus,  da construção do Palácio da Triennale, inaugurada em 1933 para ser a sede das Exposições Internacionais das Artes Decorativas e Industriais Modernas e da Arquitetura Moderna. Hoje, a Triennale é um museu de grande importância para o setor e para os amantes de design.

Com o boom da publicidade nos anos do pós guerra, o design gráfico invade as propagandas de grande marcas e lojas, como é o caso da Campari e da loja de departamentos La Rinascente.

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Celebração anual do design italiano, é o famoso Salão do Móvel de Milão, que acabou de acontecer e que todos os anos trás à cidade, cerca de 400 mil visitantes em busca de inspiração e negócios.

Mas o que faz a moda e o design milanês famosos no mundo e os torna ícones da cidade, não são só a qualidade e criatividade. Esses dois setores se consolidaram com um sistema  baseado em um equilíbrio produtivo entre business, cultura, profissionais, críticos, comunicadores, artesãos, empresários e, no caso do design, com centros de pesquisa como o Politecnico de Milão.

Para conhecer os ícones de Porto e Barcelona, clique nos links abaixo:

O Sol de Barcelona

O Porto Encanta 

Piero Fornasetti e um rosto 350 vezes

Se festeja esse ano o centenário do nascimento de Piero Fornasetti e o Triennale Design Museum apresenta a primeira grande, e inédita, mostra dedicada a ele na Itália. De novembro a fevereiro do ano que vem vai ser possível admirar cerca de 700 peças provenientes, na maior parte, do extraordinário arquivo mantido pelo seu filho Barnaba.

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Piero Fornasetti (1913-1988) foi um artista milanês de múltiplos talentos e prolífico: pintor, decorador e designer, teve a sua época de ouro nos anos 60. As suas obras decoram casas de elite mas são desconhecidas pelo grande público. Fornasetti criou 11.000 produtos de todos os tipos: móveis, pratos, vasos, lustres, tecidos, azulejos nos quais o contraste entre realidade e ilusão é sempre presente. Entre seus temas preferidos, um dos mais recorrentes são o sol, os baralhos, arlequins, mãos, auto-retratos e balões. Mas as obras mais conhecidas são as 350 variações do rosto de uma mulher realizadas em pratos e outros objetos.

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Essa mulher representada 350 vezes é a cantante lírica Lina Cavalieri (1875-1944), conhecida pelo público do mundo inteiro pela sua beleza e secundariamente pela sua voz.

Apesar de suas origens humildes (tinha vendido flores e jornais), tinha uma postura e comportamento de grande dama e tinha quem a considerasse a mulher mais bonita do mundo. Lina teve uma vida movimentada, com três casamentos e diversos amantes. Se conta que até o famoso industrial Davide Campari, completamente apaixonado por ela, a seguiu por vários tours pela Europa e Russia, aproveitando para divulgar seu próprio aperitivo: o Campari.

Lina Cavalieri

Fornasetti encontrou esse rosto folheando uma revista francesa e ficou impressionado: “O rosto de Lina Cavalieri é um verdadeiro arquetipo: a síntese de uma imagem de beleza clássica, como uma estátua grega, enigmática como a Monalisa.”

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O filho de Fornasetti, continua a produzir os produtos do pai, vendidos em pouquíssimas lojas no mundo. Em Milão são duas: o loja dedicada ao artista e na famosa concept store 10 Corso Como.

Se você se apaixonou por Lina Cavalieri, a próxima vez que vier a Milão, dê uma passadinha.

Mostra Temporária – Triennale Design Museum
Piero Fornasetti: 100 anni di follia pratica
De 13 de novembro 2013 a 9 fevereiro 2014
 
Spazio Fornasetti
Corso Venezia, 21/A
www.fornasetti.com
 
10 Corso Como
Corso Como, 10

 

Vila Necchi Campiglio

Desde que comecei a escrever o blog, há poucos meses atrás, fiquei pensando em esconder uma das maravilhas dessa cidade, minha menina dos olhos, lugar pelo qual me encantei  desde a primeira vez que visitei.

Achei que podia ter esse direito de esconder essa  pérola, de ficar com esse segredo pra mim, preservar esse cantinho da cidade pouco visitados pelos turistas estrangeiros e que é um raro exemplo de casa burguesa do início dos anos 30 em Milão.

Mas depois lembrei que meu compromisso é gritar para todos os brasileiros o quanto de maravilhoso essa cidade tem à oferecer além das badaladas vitrines e resolvi que deveria contar para vocês da Villa Necchi Campiglio, que hoje faz parte do circuito das casas-museus de Milão.

vila necchi campiglio MIlao

Conta a lenda que a família Necchi Campiglio, ricos industriais da área de Varese, queria comprar um terreno para construir um mansão no centro de Milão. Em uma noite de forte névoa, voltando de um concerto no Teatro Scala, se perderam e foram parar em uma rua onde um grande terreno tinha uma placa de vende-se.

Construída entre 1932 e 1935 pelo arquiteto milanês Piero Portaluppi sem limite de orçamento, a mansão para a época era o que existia de mais moderno, exemplo do recém-nascido racionalismo italiano. E foi essa modernidade (que hoje é uma modernidade retrô) que mais me encantou na casa.

vila necchi Milao

A mansão é uma obra de arte em si e o interior é enriquecido com inúmeras pinturas, escultura e móveis (os melhores são os desenhados pelo arquiteto da casa) comprados pela família ao longo dos anos na Itália e em diversas partes do mundo.  Tudo rodeado por um enorme jardim com piscina (uma das poucas na época na cidade) e um campo de tênis.

São 4 andares (o subsolo, onde ficavam as cozinhas não estava aberto para visitas) com a decoração intacta, como se seus três habitantes (Angelo Necchi, Gigina Campiglio e a irmã Nedda Campiglio) tivessem saído e fossem voltar a qualquer momento.

No térreo ficam o hall, o escritório, biblioteca, sala de estar, copa,  sala de  jantar e uma maravilhosa varanda toda de vidro que,  para o lado que dá para a casa, é dotada de duas grandes portas blindadas de ferro desenhadas por Portaluppi que são design puro. Meu cantinho preferido na mansão.

necchi campiglio MIlao

No andar superior um corredor feito de portas leva aos quartos do casal, de Nedda  e aos armários que ainda hoje mostram  as luxuosas roupas e acessórios das irmãs Campiglio. Até os banheiros valem a visita. No segundo andar também ficavam os quartos dos hóspedes e  das duas camareiras responsáveis pelos guarda-roupas das irmãs.

corredor

O último andar, quase um grande sótão, abrigava os aposentos e banheiros dos empregados domésticos e uma sala e hoje é usado como espaço para exposições temporárias.

Os ambientes mais característicos e os meus preferidos são os que mantiveram o estilo racionalista de Portaluppi, porque uma vez terminada a casa, mesmo o culto casal Nacchi Campiglio teve dificuldades em aceitar o estilo troppo moderno para a época e posteriormente chamaram um outro arquiteto para nobilizar alguns ambientes. O resultado, na minha opinião, não é o máximo.

A casa foi habitada por Gigina até 2001 e depois da sua morte foi doada ao Fondo per l’Ambiente Italiano, que administra a mansão e propõe visitas guiadas (também em inglês) diariamente.

O belo jardim acolhe a charmosa cafeteria, com entrada independente para quem não quer visitar a mansão, que é perfeita para um café ou um drink nas manhãs e tarde de primavera e verão em Milão.

jardim necchi campiglio milao

Por que uma pérola assim, em pleno centro , não é toda cidade que tem.

Villa Necchi Campiglio
 Via Mozart 14
De quarta à domingo das 10 às 18
Ingresso: 8 euros (inteiro) 4 euros (crianças de 4 a 12 anos)
Visitas guiadas em italiano e inglês (segundo a disponibilidade)