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Matera: a cidade cavada nas rochas

Milão nas mãos passa as fronteiras do Norte da Itália e lança a categoria pela Itália (encontradas no Menu Passeios) e começa com um destino surpreendente na pouco explorada região da Basilicata, onde as cores, sabores e perfumes fazem a Itália ainda mais Itália.

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Em março desse ano, começamos a pensar em um destino para as nossas férias anuais sem filhas. Estando na Europa, as possibilidades eram múltiplas e chegamos até a pensar em algo mais longe como Bangkok, até que pensei: porque uma cidade em um outro país se nós não conhecemos ainda o Sul da Itália?

Sem escolher muito, a decisão foi uma viagem pela região da Puglia (a batata da perna e salto da bota) e já que iríamos até lá, porque não estender a viagem até Matera, a linda cidade cavada na rocha, que fica na região ao lado da Puglia, a Basilicata.

Chegamos ao aeroporto de Bari (Puglia) em uma manhã do final de junho e depois de retirar o carro que alugamos e passarmos por Trani e Alberobello (que vão ficar para um outro post), chegamos no final do dia sob uma forte chuva para as nossas 2 noites em Matera.

A chegada foi pela parte nova da cidade, que fica em uma parte plana, até entrarmos pelas ruelas da parte medieval onde ficava o nosso hotel, guiados pelo GPS meio enlouquecido e darmos de cara com uma éspecie de presépio de cartão postal. Eu acho que naquele momento, arregalei os olhos e fiquei alguns segundos com a boca aberta: Matera era, como eu esperava, realmente linda… mesmo embaixo de uma chuva de verão que não dava trégua.

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Difícil falar de Matera sem contar um pouco da sua história milenar e bastante dolorida. Patrimônio Unesco desde 1993, no pós guerra a cidade foi considerada vergonha nacional, símbolo do atraso do sul do país, por conta da degradação e das condições miseráveis de milhares de famílias que viviam nas casas grutas, quase sempre junto com os próprios animais. As condições higiênicas eram péssimas, a taxa de mortalidade altíssima e nos anos seguintes o governo evacuou 15.000 pessoas da área.

Matera se esvaziou e caiu no esquecimento por 30 anos, até que nos anos 80 uma lei nacional destina verbas para a recuperação da zona. Em 1993 o reconhecimento da Unesco e a lenta retomada do burgo com um programa de restruturações subsidiado pelo governo e Comunidade Europeia que incentiva a compra de propriedades.

A parte ‘conhecida’ da cidade é chamada I Sassi di Matera (as rochas de Matera), um conjunto de casas cavadas como grutas e algumas construídas que se dividem em duas partes: Sasso Caveoso e Sasso Barisano, de idade medieval. Mas a região de Matera já era habitada em época Paleolítica e em uma parte do grande canyon, chamada Murgia, ainda é possível visitar algumas das 150 construções rupestres transformadas em igrejas a partir no ano mil.

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Para não perder todos esses aspectos históricos importantíssimos quando se conhece uma cidade como essa, já tínhamos reservado uma visita guiada só para nós dois com uma guia local. Eleonora, formada em História da Arte, nos guiou literalmente para cima a para baixo pelas ruelas escorregadias de Matera (eu estava com sandálias com solas não apropriadas), explicando e mostrando as complexidades e belezas da área por cerca de três horas.

Vimos os fornos comunitários usados para assar pães, o sistema de coleta de água da chuva secular, igrejas, mas o ponto alto do tour para mim foi a visita de uma das casas museus, onde é possível imaginar em que condições viviam até 10 pessoas (mais cavalos, porcos, cabras e galinhas) até pouco mais de 50 anos atrás.

casa_gruta_matera

Quase todas as casas grutas foram cavadas em profundidade, para baixo, para construir dois ou três ambientes. Os mais baixos, muito mais úmidos e frios, serviam como depósito para alimentos e vinho ou como estábulo, assim o calor dos animais ‘subia’ e esquentava os outros ambientes. Uma vida duríssima e sofrida. Tanto que a nossa guia, que tem uma avó que viveu nas grutas, nos contou que a senhora não entende como turistas de todo o mundo paguem as salgadas diárias dos hotéis da cidade para viver uma experiência que muitos materanos querem só esquecer.

Depois do tour e de um almoço rápido, o sol era forte e o calor implacável. Mesmo assim, ficamos zanzando por um centro quase deserto e de lojas fechadas que estava sendo decorado para a grande festa que os materanos fazem no dia de São Pedro, 29 de junho. A ideia era esperar para visitar o Palombaro Lungo, a enorme cisterna cavada nas rochas de Matera no século 17 e hoje localizada embaixo da praça da cidade, que perde como capacidade (pode conter até 5 milhões de litros de água) só para a cisterna de Istambul.

cisterna_matera

As visitas (em italiano e inglês contemporaneamente) são feitas por guias locais para pequenos grupos formados no momento.

A cidade tem um Museu Arqueológico riquíssimo (dada a idade pré histórica do lugar) e o Duomo está fechado há anos para reformas, mas caminhar por Matera é um esforço físico intenso e resolvemos que nossa exploração acabaria por alí.

No dia seguinte, depois de deixar o hotel e antes de irmos embora, fomos de carro até o outro lado da Murgia (o canyon) para ver Matera de uma outra perspectiva. Ainda que nós tivéssemos mais 5 dias pela frente com um roteiro de lugares lindos para conhecer, deixei Matera com um gostinho de quero mais. Eu teria ficado na cidade, sem problema nenhum, mais uns 2 dias.

Lembrando, antes de terminar essa parte sobre a cidade, que pela peculiaridade do território e sua história milenar, Matera foi escolhida como locação de vários filmes ao longo desses anos, como o Evangelho Segundo Mateus de Pasolini (1964) e a Paixão de Cristo de Mel Gibson (2004), filme que ajudou a despertar o interesse do mundo pela cidade.

GASTRONOMIA

Ninguém discorda que a gastronomia é um dos pilares da fama da Itália pelo mundo e a do sul do país não decepciona. Feita de produtos locais e frescos, encontramos por lá coisas nunca provadas no mais gélido Norte.

Na noite que chegamos, uma segunda, alguns restaurantes estavam fechados e acabamos decidindo por um restaurante perto do hotel, o Restaurante Francesca,  uma construção cavada como tantas outras mas com interior mais moderno, onde acabamos provando dois tipos de massa com molhos aparentemente simples, mas deliciosos. Tudo acompanhado por um vinho local.

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No dia seguinte, depois do nosso tour, a ideia era conhecer as famosas ‘laterias’ de algumas cidades do sul. Elas são como um açougue/mercearia com mesas e cadeiras onde você escolhe um corte de carne e eles preparam para você na hora.

Alí no centro optamos pela La Latteria, ambiente simples e autêntico onde comemos carne. Eu, lembrando da dica da minha guia, escolhi linguiça pezzente, um produto Slow Food feito de carne de porcos criados em estado selvagem.

restaurante_lateria_matera

A noite do segundo dia foi regada a vinho e risadas em um happy hour com a brasileira Cris Bergamini, que vive em Matera e que me ‘achou’ no Instagram quando postei uma foto da cidade. Da série ‘as maravilhosas pessoas que encontro através do blog’.

HOSPEDAGEM

Matera tem uma rede hoteleira incrível e diversificada, já que grande parte das construções da cidade medieval foram convertidas em hotéis, bed and breakfast e albergues.

Tínhamos decidido que a nossa hospedagem em Matera seria um dos pontos altos da viagem (além das paisagens e lugares visitados). A escolha ficou por conta do meticuloso (e romântico) marido, que depois de dias e dias de pesquisa, acabou reservando duas noites no exclusivo Sextantio Le Grotte della Civita

O hotel faz parte do projeto de um empresário italo-sueco (ele tem outro na região de Abruzzo) de recuperação de burgos e áreas abandonadas e em Matera ele é composto de cerca de 20 quartos-grutas concentrados em uma pequena área do Sasso Barisano onde também ficavam a recepção e a sala de café da manhã, montada onde antes era uma igreja.

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A proposta do hotel é de uma intervenção mínima nas grutas e os quartos, bem peculiares, não tem televisão, frigobar ou telefone. Você está alí para apreciar Matera e isso não inclui nem a ideia de assistir o jornal da noite e suas notícias pouco animadoras.

A nossa suíte tinha cerca de 140 mt² divididos em 3 ambientes: o quarto, um banheiro com chuveiro e  pia onde antes era um estábulo (a pia era uma manjedoura  e os ganchos nas paredes eram usados para amarrar os cavalos) e a cenográfica sala de banho, onde uma banheira de design reinava no meio, rodeadas de velas. Todos os produtos (sabonetes e shampoos) eram orgânicos e os móveis também eram em linha com o ambiente: todos antigos e de madeira.

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Entrando no quarto-gruta, se sentia a umidade e um leve cheiro de molhado, mas um grandíssimo desumidificador dava conta do recado. Mesmo assim, em pleno final de junho, dormimos de cobertor.

Os quartos da parte de baixo do hotel tem vista (saindo na varanda) para a espetacular Murgia de Matera, uma espécie de canyon atravessada por um longo riacho. É do outro lado que ficam a maior parte das igrejas rupestres da região, que acabamos deixando para visitar em uma outra ocasião (as visitas são feitas só com guias autorizados).

O café da manhã do hotel também era a altura de toda atmosfera: mousse de ricota, mozzarelas frescas, foccacias e bolos caseiros, frutas e pães da região servidos em grande mesas de madeira dentro da igreja-gruta.

cafe_sextantio

Se Matera em si já é uma experiência intensa, a hospedagem no Sextatio foi uma escolha perfeita para coroar a nossa estadia na cidade.

Outros hotéis na cidade propõe quartos dentro das grutas cavadas nas rochas materenses, como o Hotel in Pietra, propriedade da brasileira Cris Bergamini e seu marido.

Na noite que conversamos e rimos muito, fui conhecer a estrutura, elegantemente decorada por Cris com uma mistura de móveis locais e brasileiros. A minha paixão foi por um quarto com um terraço com vista para as rochas de Matera.

hotel em Matera Italia

Já que resolvi que mais cedo ou mais tarde volto a Matera, pelo menos o próximo quarto já está escolhido.

Para quem é adepto dos albergues da juventude a opção é a Fondazione Le Monacelle, que dispõe de 12 quartos com ar condicionado, café da manhã incluído por preços mais modestos do que as outras estruturas hoteleiras da cidade.

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COMO CHEGAR

A região da Basilicata não tem aeroporto e a melhor maneira é chegar até a Puglia. Nós pegamos um vôo Milão-Bari e lá alugamos um carro para rodarmos pela região por 6 dias.

É possível também chegando de avião em Bari pegar um trem ou shuttle até Matera.

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