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Milão: cidade de águas

Barcelona, Milão, Porto. O que essas cidades tem em comum?

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Barcelona- Milão-Porto, que todas as quinta de Abril vai mostrar um pouco das coisas em comum dessas 3 grandes cidades europeias, pontos de referências em seus países, com a participação de Cristina Rosa do blog  Sol de Barcelona e Rita Branco do blog O Porto Encanta.

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Paris, Londres, New York, Roma, Lisboa, Amsterdan, Veneza e minhas cidades amigas de blogagem coletiva Porto e Barcelona.

Quem pensa em alguma dessas cidades, não pode pensar nelas sem pensar nos seus rios, canais ou mar. Não acontece o mesmo em quem pensa em Milão. Mas o título do post não é uma brincadeira, ainda que a minha amada cidade não seja páreo para as outras cidades no que diz respeito ao volume de água.

Quem já esteve por aqui e passeou bem, andando além dos confins do centro histórico, deve ter chegado ao bairro Navigli, que em italiano quer dizer canais e que hoje preserva uma pequeníssima parte do que era a rede de canais dessa cidade.  Sim, Milão era chamada “città d’acqua” e se nunca foi uma Veneza, chegou bem perto.

O Naviglio Grande hoje

O Naviglio Grande hoje

Os canais de Milão tem origem em tempos antigos e já em época romana a cidade contava com seus cursos de água, resultados dos desvios dos rios presentes nas redondezas. Mas foi só no início do século 12 que os milaneses começaram a construir os que viriam a ser os canais da parte interna da cidade, navegáveis inteiramente só no século 13.

Os canais milaneses foram de grande importância para a vida cotidiana, a agricultura e o comércio da cidade. Também foi  fonte de energia idroelétrica e via de comunicação e de transporte, já que ligava a cidade com os lagos de Como,  Maggiore e Ticino.

Basta pensar no maior símbolo de Milão, o Duomo e no material da qual é feita, o belíssimo mármore de Candoglia. A cidade fica a 82km de Milão e abriga ainda hoje a grande jazida particular da catedral. Por séculos o mármore extraído de lá, viajava e chegava até Milão, em um laguinho atrás do canteiro, pelos canais.

Foram também esses mesmos canais que na época do Renascimento encantaram Leonardo Da Vinci, que permaneceu na cidade por 20 anos, a serviço do duque e que, com a sua curiosidade de gênio, não podia deixar de se interessar por eles e seu grande desafio: os desníveis acentuados ao longo dos trajetos.

Uma das comportas dos canais. Foto: Arnaldo Chierichetti

Uma das comportas dos canais. Foto: Arnaldo Chierichetti

O problema já tinha sido em parte resolvido com a construção de pequenas bacias, mas Leonardo não perdeu tempo e estudou e projetou sistemas de comportas e eclusas, que seriam construídas só anos depois.

Além do aspecto logístico dos canais, a população milanesa por anos os usou para pescar, nadar e lavar roupas. Eles eram parte importante e integrante da cidade  até a segunda metade do século 19, quando a revolução industrial sacudiu o mundo e novas indústrias, maneiras de produzir e as ferrovias surgiram.

A vida em volta dos canais da cidade

A vida em volta dos canais da cidade

A área que chamamos de Darsena e que hoje  está sendo compleatamente restruturada em vista da Expo2015, foi por anos o oitavo porto italiano. Mas com os anos os canais caíram em desuso por serem um meio de transporte lento (3km/h) e as novas indústrias começaram a jogar seus lixos em águas milanesas.

A Darsena. Foto: Arnaldo Chierichetti

A Darsena. Foto: Arnaldo Chierichetti

Nos anos do governo fascista, motivado por novas exigências higiênicas e de viabilidade viária, o Ministério das Obras Públicas decide pela cobertura da parte interna dos canais, criando um anel que hoje chamamos de Cerchia dei Navigli.

Sim, hoje quando passeamos ou dirigimos nossos carros modernos sob certas ruas de Milão, o fazemos sobre as águas dos antigos canais.

A mesma rua com e sem canal

A mesma rua com e sem canal

Ainda assim, os canais existentes em Milão são cinco e juntos cobrem um trajeto de 150km, em grande parte nos territórios aos arredores da cidade.

Atualmente existe uma associação que propõe um projeto, talvez utópico e de custos altíssimos, que é a reabertura dos canais da cidade, coisa que mudaria completamente a cara e a vida da cidade, porque temos que concordar: uma cidade com água, é uma cidade mais bonita.

Vida noturna nos canais milaneses

Vida noturna nos canais milaneses

A nós milaneses não nos resta que passear e fazer happy hour na pequena, bela e movimentada zona dos canais e tentar imaginar como era Milão quando podia ser comparada, ainda que só em parte, com suas amigas Barcelona e Porto, onde as águas reinam e dão até nome a cidade.

Para conhecer a história das águas em Barcelona e no Porto, clique nos links abaixo.

Porto: cidade de águas – Porto Encanta

Barcelona: cidade de águas – Sol de Barcelona

É primavera em Milão

Barcelona, Milão, Porto. O que essas cidades tem em comum?

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Barcelona- Milão-Porto, que todas as quinta de Abril vai mostrar um pouco das coisas em comum dessas 3 grandes cidades europeias, pontos de referências em seus países, com a participação de Cristina Rosa do blog  Sol de Barcelona e Rita Branco do blog O Porto Encanta.

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Me lembro que há uns 25 anos atrás, uma grande amiga da minha família fez a sua primeira viagem a Europa e voltou ao Brasil nos contando que em Vienna, as pessoas se colocavam embaixo do primeiro raio de sol nas praças e parques na hora do almoço, muitas vezes ficando até sem blusa. Óbvio que todos nós achamos engraçado e exagerado.

Uma pessoa que passa a vida em um país tropical como o Brasil, sem estações muito definidas, não pode imaginar o efeito do sol e os prazeres por ele proporcionado depois de meses de inverno e frio. E olha que eu estou escrevendo da Itália, que não é o país mais frio por aqui.

primavera

Difícil explicar para quem nunca morou por aqui, mas a vida na primavera (e verão), muda. Não que ela pare no inverno, mas roupas, programas e muitas vezes o humor, tomam formas diferentes.

Taí o efeito da nova estação, do sol, que não faz desabrochar só as flores e árvores, mas também coloca mesinhas e cadeiras nas calçadas em frente aos bares e restaurantes, torna tudo mais leve, muda o teu estado de espírito, fazendo desabrochar a alma.

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Por aqui vamos continuar a frequentar mostras e exposições, como as programadas na cidade para os próximos meses, mas vamos começar também a fazer programas outdoor, como pedaladas pela cidade e a demorar em almoços e happy-hours ao ar livre em Brera ou a beira dos canais da cidade. É também a melhor estação para apreciar a minha adorada magnólia no claustro da igreja de Santa Maria delle Grazie, que hospeda a famosa Santa Ceia no seu refeitório.

O claustro da igreja de Santa Maria dele Grazie

O claustro da igreja de Santa Maria delle Grazie

Pelas ruas, as primeiras flores começam a aparecer nos vasos das varandas das casas, mudando também as cores de uma cidade considerada cinza.

Que você goste do calor ou não, tem que concordar comigo: tudo é mais fácil e mais bonito com sol, inclusive Milão.

E agora que apenas começamos o horário de verão, a alegria dura até mais tarde.

Benvenuta Primavera! !

Para saber como vai a Primavera em Barcelona e no Porto clique nos links.

Sol de Barcelona

O Porto Encanta

Fotos: Milão nas mãos

‘Lifting’ em Milão

Agora é oficial: Milão está parada para revisão ou partiu um barba, cabelo e bigode. Não, Milão é uma senhora, então melhor dizer que está fazendo um lifting.

Já faz meses que por aqui vemos monumentos, fachadas e “pedaços” da cidade cobertos por andaimes ou rodeados de grandes canteiros de obras. Depois das restaurações gigantesca dentro e fora do Duomo, muitas feitas in loco, e do Palazzo della Ragione em pleno centro,  é o “salotto di Milano”, a nossa Galeria Vittorio Emanuele que passará por 1 ano de restauros.

expo2015 milao duomo milao

Restauros no Duomo – Foto: Milão nas mãos

Completamente bancada pela iniciativa privada (Prada, Versace e Feltrinelli), os trabalhos poderão ser seguidos pelos turistas e milaneses, graças a uma estrutura (andaime) móvel, que vai correr sobre um trilho.

Arquitetos e técnicos responsáveis pelos trabalhos garantem que a cada 25 dias, um novo pedaço de galeria será delvolvido à cidade, completamente limpo, em suas cores originais.  Os trabalhos deverão ser concluídos em abril de 2015.

expo2015 milão galeria vittorio emanuele milão

Restauros na Galeria – Foto: Prefeitura de Milão

E além da Galeria e Duomo, o turista que vem a Milão no próximo ano, tem que levar em conta de encontrar outras partes da cidade inacessíveis, como a Sala delle Asse, afrescada por Da Vinci no Castello Sforzesco, a estátua de Napoleão na Pinacoteca de Brera dormindo um sono merecido, a Darsena e os canais vazios também passando por reformas, os canteiros das novas estações do metrô que devem abrir até 2015, como a que chegará ao estádio de San Siro.

expo 2015 milão

Pinacoteca de Brera e Sala dele Asse

Sim, porque toda essa faxina/plástica da cidade, é a sua preparação para um dos eventos mais esperados de 2015 por aqui: a Expo2015, a famosa exposição mundial que se realiza a cada 5 anos e dura 6 meses.

Todos nós (principalmente nós mulheres) sabemos que para ficar bonita tem sempre que passar por um pouco de sacrifício. É assim que está Milão esse ano, sacrificando ela mesma e os turistas, enfaixada em boa parte, mas ano que vem, quem passar por aqui vai encontrar essa elegante e tímida senhora de cara nova.

A história do Carnaval em Milão

O carnaval mais famoso do mundo depois do nosso brasuca, é o de Veneza. Mas pela Itália, temos outros carnavais famosos e o de Milão, se não está entre eles, tem as suas particularidades.

Festa de origem antiguíssima que se festeja nos países de tradição católica, pega o nome do latim “carnem levare” (eliminar a carne), já que antigamente o banquete era feito na terça (dia gordo) antes de começar o jejum da quaresma.

Por aqui, a coisa que mais diferencia o carnaval são os dias que ele é comemorado, já que Milão e arredores seguem o ritual ambrosiano da igreja. O carnaval aqui começa na terça (de carvanal) e termina no sábado antes do domingo de quaresma.

Diz a lenda, que Ambrósio (primeiro arcebispo de Milão no século 4) estava ocupado em uma pelegrinação e os milaneses o esperaram para comemorar o dia de cinzas, adiando toda a festa. E assim ficou.

Carnaval Milao

Festa muito aprecidada pelos milaneses, arriscou de ser suprimida nos séculos 16 e 17 pelos arcebispos conservadores como Carlo Borremeo, que se pronunciava contra os milaneses fanfarrões: “Agora aqui se lembre, Milão, as máscaras, as comédias, os jogos pagãos, as danças, os banquetes, os excessos e pompas, os gastos exorbitantes, as brigas, os homicídios, as lascívias, as desonestidades, as tuas monstruosas loucuras e deboches.”

Naquela época de pestes e carestias, a festa de carnaval era feita de desfiles de carros mais ou menos alegóricos e quem podia, se vestia com trajes pomposos e ricos. Era proibido o uso de máscaras de personagens eclesiásticos. O desfile mais famoso partia da Praça Duomo e descia o que é hoje Via Torino e Corso de Porta Ticinese.

Mesmo com todas as tentativas de proibições e com a pior peste que se abateu sob a cidade (1630), o carnaval milanês teve seu auge no século 17. Foi também nessa época que surgiu o personagem carnavalesco mais famoso por aqui, criado por um autor de comédias teatrais e que hoje dá nome aos cidadãos milaneses: Meneghino.

Carnaval em Milao

O nome é o diminutivo de Domenico e representa os domésticos dos nobres da época (quem não podia ter um doméstico fixo, contratava um para os domingos). O Meneghino não usa uma máscara e tem uma esposa chamada Cecca (diminutivo dialetal de Francesca).

Hoje as coisas mudaram bastante: por aqui os dias de carnaval não são feriados e a festa se resume praticamente  a crianças fantasiadas na Praça Duomo brincando com confete e serpentina ou um desfile aqui e alí.

Diabolik: o HQ milanês criado por duas irmãs

Na maior parte dos países, os quadrinhos para adultos são dominados pelos personagens americanos da Marvel e DC Comis (Homem-Aranha, X-Men, Batman, Super Homem) ou pelos mangás japoneses.

Diabolik Milão

Na Itália o mercado é dominado por HQ’s nacionais, todos de editoras milaneses. No topo da lista dos quadrinhos mais vendidos está também Diabolik, que esse mês comemora a edição número 800.

Publicado sem intervalo desde 1962, é resultado da criatividade e do trabalho das irmãs Angela e Luciana Giussani, duas senhoras da burguesia milanesa que, antes mesmo de 68 e dos anos da emancipação feminina, tiveram a coragem de tornar-se empresárias, deixando a entediante comodidade que o estado social delas garantia e criando uma revista que na época foi um escândalo.

Angela e Luciana Giussani

Angela e Luciana Giussani

Nos anos 50, Angela dirigia, tinha o brevê de piloto, andava a cavalo, esquiava e como uma boa milanesa trabalhava duro como jornalista e modelo. Aos 26 anos se casou  com um editor, mas se torna independente fundando a editora Astorina para publicar Diabolik, a sua criação. Depois de alguns anos, a irmã Luciana começa a colaborar com ela na redação dos textos.

Elas, que moravam perto da estação  de trem Cadorna, pensaram em criar uma revista em quadrinhos no formato de bolso, ideal para uma leitura no trem, fácil, rápida e envolvente. No início não foi fácil encontrar um distribuidor para a revista e elas viajaram pela Itália, indo pessoalmente de banca em banca de jornal para divulgar a revista.

Diabolik é uma HQ mensal e foi adaptado para o cinema em 1968. Atualmente o canal italiano divulgou o trailer (abaixo) da série que está em produção e deverá estrear em 2014.

Diabolik é um ladrão de habilidades e engenho fora do comum, capaz de mudar várias fisionomias graças as máscaras que ele mesmo realiza. Para se camuflar de noite, usa uma roupa preta aderente. Em muitos episódios, o adversário de Diabolik é o inspetor Ginko, genial e bonitão como seu antagonista, mas limitado pelo fato que não pode atuar na ilegalidade e dever respeitar a lei.

Diabolik e Eva Kant

Diabolik e Eva Kant

Ao lado de Diabolik se vê sempre Eva Kant. Loira, linda e determinada, constrói com Diabolik uma relação sólida, baseada no mesmo estilo de vida. Eva é também personagem principal de algumas edições da revista.

Mesmo atuando na ilegalidade, Diabolik tem princípios éticos (honra, tutela dos mais fracos, sentimento de amizade e de reconhecimento) e por isso, odeia os mafiosos, narcotraficantes e agiotas. É visto como um personagem real, bem diferente de Homem-Aranha e Super-Homem e seus poderes e apesar de ser um personagem malvado é ao mesmo tempo vencedor e pelo qual torcemos.

A edição no.800 na no Milão nas mãos

A edição no.800 na sede do Milão nas mãos

No Brasil, a revista foi publicada pelas editoras Vecchi e Record e nos anos 70, a redação milanesa teve como desenhista o brasileiro Wilson Vieira (página Google +), que ilustrou vários quadrinhos na Itália.

Para quem entende o italiano e gosta de quadrinhos, existe um documentário sobre as irmãs Giusanni (Le Sorelle Diabolik) que conta a extraordinária história desse HQ 100% milanês.