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Milão pelos olhos de uma viajante brasileira

Como eu já contei outras vezes, desde que comecei o Milão nas mãos, há quase 1 ano, conheci um montão de gente legal, pessoalmente e virtualmente. Uma delas (virtualmente) é a brasileira Sandra Brocksom, que vive desde 2011 em Madri com seu companheiro Paco.

Sandra também tem um blog, o Sandra B em Madrid, que ela mesma define como um blog caseiro e narcísico, que como muitos outros blogs de expatriados, nasceu como um diário de sua cotidianidade ibérica, um modo de manter contato e contar suas experiências aos caros deixados no Brasil.

No final de junho Sandra passou um final de semana em Milão com Paco e, como gosto muito do texto dela, a convidei para escrever um guest post sobre a cidade. Um olhar diferente do meu  (mas não muito) para os leitores. Boa leitura!!

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Por Sandra Brocksom

Arrisco dizer que eu, como 100% dos brasileiros, não tinha Milão como a primeira cidade que queria conhecer da Itália. Brasileiros querem ir a Toscana e suas pequenas vilas que são cenários das histórias das nonas. Acho que queremos recuperar aquela memória das centenas de famílias italianas que vieram ao Brasil.

No último final de semana de junho Milão aconteceu, um final de semana longo, um bate e volta de Madrid a Milão. Assim como 100% dos turistas brasileiros, minha grande preocupação era que Milão fosse cara demais a ponto de impossibilitar qualquer diversão. Eu acho também que Milão é muito mais cara que Madrid, que é uma das capitais européias com o custo de vida mais econômico. Explico mais, Paco e eu estamos muito acostumados a fazer atividades culturais a custo quase zero, vamos a museus nos horários gratuitos, shows free, comemos em botecos e cozinhamos muito em casa. Quando viajamos também somos assim: nada de restaurantes chiques, nem grandes compras. Queríamos adequar Milão ao nosso estilo super econômico de viagem. E deu!!

milao em bicicleta

Para conseguir submeter uma grande cidade cosmopolita ao nosso baixo orçamento, eu pesquisei bastante. Foi ai que descobri o “Milão nas mãos” que me ajudou com 80% do nosso final de semana. Os outros 20% eram direções óbvias: o Duomo e seu entorno. A sua paixão pelas ruas, pessoas e arquitetura de Milão me contagiou. Também tenho que confessar que você é responsável da minha grande frustração: eu não achei o Quadriláterio do Silêncio. Você escreveu um post maravilhoso sobre o lugar, eu tinha que vê-lo. Depois que voltei para casa, revi meus roteiros, percebi que estive muito perto e não soube vê-lo. Este é meu primeiro motivo para voltar!

Diante do seu rico material publicado, eu sabia que tinha que fazer escolhas de caminhos e também sabia que as ruas da cidade seriam nosso cenário. Você moldou o meu olhar! Eu sabia para onde tinha que olhar “Milão é uma cidade para se descobrir nos interiores, de belezas escondidas e fachadas austeras”. E por outro lado: “É uma cidade onde você tem que caminhar prestando atenção nos portões abertos de muitos palácios para ver se tem a sorte de descobrir os mais belos pátios da Itália (prometo um post sobre eles), caminhar olhando para cima, quando possível, para admirar seus jardins suspensos. Mas uma das coisas que mais adoro aqui, são essas quantidades infinitas de homens e mulheres “encostados” nas fachadas de palácios mais ou menos históricos das cidades e até das igrejas, como o Duomo. Quem são? As famosas cariátides e telamones “.

estatuas em milao

Nossa viagem também suponha um desafio: encontrar uma amiga que aterrou na cidade somente no sábado no final de tarde. Chegamos na sexta-feira de manhã e tínhamos que evitar o Duomo nas próximas horas porque queríamos explorá-lo com ela. Nós tínhamos que deixar o melhor para o final. Apesar de todas as tentações, o Duomo tem uma força atrativa como um polo magnético, conseguimos cumprir nossa auto-imposta missão de não entrar no Duomo logo nas primeiras horas.

No nosso primeiro dia, sexta-feira, eu propus a Paco uma longa caminhada que cruzasse a cidade pelo seu centro. Escolhi como ponto final Mercato di Piazza Wagner (dica do blog Turomaquia). O ponto inicial foi a estação Central onde o ônibus vindo do aeroporto de Bergamo nos deixou. Fizemos uma parada estratégica para deixar as mochilas no hotel barato e limpo perto do metrô Porta de Veneza e seguimos: Giardini Pubblici; Via Manzoni; Teatro Scala; Estátua do Leonardo; Galeria Vittorio Emanuele; Duomo; Castelo Sforzesco; Praça Cadorna; Corso Magenta; Mercato di Piazza Wagner.

bondinho-milao

Claro que não fizemos o percurso assim tão linear como no mapa. Zig-zageamos pelo Giardini Pubblici di Porta Venezia; cogitamos entrar na Galleria di Arte Moderna (um dos museus gratuitos) mas achamos arriscado ficar horas ali e perder a cidade que clamava que deveríamos seguir caminhando. Assim fomos, eu olhando para cima buscando o Quadrilátero do Silêncio que estava logo ali e não vi, e o Paco já vidrado pelos bondinhos amarelos que eu propositadamente não havia contado que em Milão também existe “tranvia”, como são chamados em espanhol. Foi muito bonito ver os olhos dele iluminados pela paixão de menino por trens e bondes. Passou o primeiro dia emocionado atrás das melhores fotos, ficamos algum tempo parados em várias esquinas esperando pelos bondinhos.

Não sei o porquê, naquela hora passamos quase reto pelo Teatro Scala e nos dedicamos a reverenciar a estátua de Leonardo Da Vinci, somos fãs do projeto “Da Vinci the genius” que leva a vários países as incríveis invenções do mestre. Como planejamos a viagem de última hora, não conseguimos entradas para ver a Santa Ceia pintada por ele. Segundo motivo para voltar a Milão.

estatua da vinci milao

Cruzamos a Galeria Vittorio Emanuele maravilhados com seu esplendor. Eu fiquei particularmente interessada nas mulheres de véu (de marca) em um alto grau de consumo. Elas em duplas ou trio com suas crianças e, às vezes, com seus maridos, entrando e saindo das lojas de alta gama da Galeria com naturalidade de quem vai comprar pão na esquina. Entendi que são elas que protagonizam o consumo.

Chegamos a piazza del Duomo! E ali creio que palavras não são suficientes, saíram muitos UAU!UAU! Seguimos em direção ao Castelo Sforzesco. Ficamos tentados em entrar no museu, mais uma vez escolhemos as ruas. Ter tempo para apreciar os museus é o meu terceiro motivo para voltar.

Deste ponto até chegar ao mercado nos perdemos muito. Rodamos as rotatórias entrando e saindo das ruas, ficamos sem qualquer sentido de direção. Já estávamos tão cansados que não tiramos fotos decentes dos magníficos balcões dos prédios que existem na região. Eu fiquei apaixonada por eles, eu imaginei tantas lindas serenatas de amor eles não inspiraram. Depois ficamos arrependidos de não ter tantas fotos e tenho meu quarto motivo para voltar.

Enfim, encontramos o mercado que foi escolhido porque fica no estremo oposto de onde esta nosso hotel. É um mercado de comida “normal e corrente” como existe tantos e em todas as cidades. Eu acho que entrar em mercado e supermercados é parada obrigatória no turismo econômico que fazemos. Demos uma volta e compramos vários pães e pizzas. Andamos até uma praça próxima e devoramos tudo. O pão de cebola estava especialmente delicioso.

Energias recuperadas, caminhamos tudo de volta até chegarmos exaustos no hotel. Por sorte havia uma pequena pizzaria, dessas que agradam estudantes “eramus” e a nós. Pizza boa, atendimento caseiro e barato.

Queria terminar contando um pequeno causo. Sábado pegamos leve com a caminhada. Começamos pelo Corso de Vezenia onde paramos um pequeno bar para nosso legítimo expresso italiano. Eu queria um “café normale”, forte. Paco queria o seu com leite, “caffè macchiato”. A dona do lugar nos deu uma aula de como apreciar um café. Paco descreveu como se toma “café com leche” na Espanha e ela taxativamente disse que isso não se faz na Itália. Ela não foi especialmente simpática e, sim, cativantemente generosa em nos explicar as diferenças.

Estas foram nossas primeiras impressiones de Milão: imponente e chique como o Duomo; firme, estrita e generosa como a dona do café; abundante com os seus balcões. No domingo tevemos outra visão da cidade, da zona boemia e acolhedora Navigli, mas isso fica para outro post.

Milão e os bombardeios da Segunda Guerra Mundial

Em agosto desse ano, Milão relembra 70 anos de um triste acontecimento na cidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, Milão foi intensamente bombardeada pelos aviões ingleses das forças aliadas. A Itália entrou em guerra em junho de 1940 e durante os anos sucessivos foram mais de 60 ataques de intensidades diferentes. O mais grave, por danos e números de vítimas foram os de agosto de 1943.

Praça San Fedele Milão

Se no ínicio do conflito os principais alvos eram fábricas e linhas ferroviárias, as forças aliadas não demoraram a bombardear os principais patrimônios históricos-culturais da cidade, com  objetivo de ferir o orgulho milanês através da destruição desses. Ainda que as bombas tenham causado danos imensos aos monumentos da cidade, Milão, desde 1939 já possuia um plano para a defesa do próprio patrimômio monumental.  O então superintendente do ministério competente, conseguiu obter 370.000 sacos e 19.000 metros cúbicos de areia para utilizar como proteção dos maiores monumentos e igrejas lombardas. Junto a tal projeto, foi predisposto um plano de relevação fotográfica e gráfica das obras mais importantes com a intenção de reunir todos os dados que eventualmente pudessem servir para a restauração dos monumentos atingidos.

galeria milao

Duomo, as igrejas de Santo Ambrogio, Santo Eustorgio, São Marco, Santa Maria delle Grazie, Santa Maria della Passione, San Maurizio, San Nazaro, Teatro Scala, Castelo Sforzesco, Santa Ceia de Da Vinci, Villa Reale, Biblioteca Ambrosiana e Pinacoteca de Brera  são algumas das construções eclesiásticas e civis colocadas sob algum tipo de proteção.

Em janeiro de 1943, 24 edifícios considerados monumentais já tinham sido colocados “a salvo”. Em alguns casos, a intervenção constituiu só na desmontagem ou transferimento de obras de arte, como no caso da Pinacoteca de Brera, cujo acervo foi transferido para o espetacular cofre subterrâneo do banco Cariplo em Via Verdi, ao lado do Teatro Scala.  Os vitrais do Duomo junto com as 135 estátuas das agulhas foram retirados e armazenados nos subterrâneos da catedral, que talvez por bom senso dos ingleses, não foi diretamente bombardeada.

cofre milao banco

Os monumentos milaneses foram intensamente bombardeados entre as noites de 12 e 13 de agosto 1943, quando 504 aviões (sim, 504) lançaram sob a cidade 2.000 toneladas de bombas e também 2 dias depois, entre os dias 15 e 16, quando 600 toneladas de explosivos destruíram o Teatro Scala, a basílica de Santo Ambrogio e a igreja de Santa Maria delle Grazie, onde se salvou, por milagre, a parede com a famosa obra de Da Vinci.

A parede com a Santa Ceia protegida pelos sacos de areia e andaimes

Na manhã do dia 17 de agosto Milãó era um acúmulo de escombros. Até o final da guerra, em 1945, a cidade sofreu outros ataques de menor intensidade. Nos 10 anos seguintes, junto com a emergência civil (a população privada das próprias casas, escolas e hospitais) Milão fez o que sempre soube fazer de melhor: arregaçou as mangas e se reconstruiu.

Fotos: internet e arquivo Intesa SanPaolo

Stramilano: corrida de rua em Milão

Milão é uma cidade que gosta de correr e eu não estou falando da correria do dia-a-dia, estou falando de running. Aqui, a prova de corrida de rua mais famosa, democrática e popular é a Stramilano, que existe desde 1972  e acontece todos os anos, em março.

Prova Corrida Rua Milao

A parte final passando pelo Castelo Sforzesco

Esse ano a prova é dia 24 de março e será, como sempre, dividida entre a Stramilanina (5km), a famosa Stramilano (10km) e a Stramilano Agonistica Internazionale – Meia Maratona (21km).

Participei pela primeira vez ano passado e correr entre a arquitetura e parques milaneses, em um percurso que inicia na Praça Duomo, passa pelo Parque Sempione e termina na Arena Civica foi uma bela experiência. Mas eu sou suspeita, porque gosto mesmo é de correr no asfalto e na cidade.

As duas provas mais curtas podem ser feitas por qualquer pessoa, de qualquer idade, correndo ou caminhando. Você só tem que se inscrever (12 euros), vestir roupas adequadas (nada de pegar o primeiro par de tênis que aparecer na sua frente) e correr.

Corrida Rua em Milao

Qualquer pessoa pode participar

A coisa aqui é levada tão a sério que a própria prova organiza treinamentos grátis aos domingos em dois pontos da cidade. E para completar o calendário de provas de corrida de rua da cidade, duas semanas mais tarde, 7 de abril,  Milão realiza a 13 Milano City Marathon.

A cada ano o público das corridas de rua na cidade é sempre mais feminino e Milão está cheio de iniciativas cor-de-rosa. Pink Power é a série de 3 encontros de treinamento para a preparação feminina para a maratona e para fechar com chave de ouro, a Nike acabou de inaugurar na nova praça Gae Aulenti um grande iglu rosa, o Nike Flyknit Hub, que até maio apresenta a tecnologia da revoluzionaria Flyknit Lunar One.

Nike Hub em Milao

O Nike Flyknit Hub em Milão

Se você estiver passando em Milão e for um(a) runner, ficam aí as dicas. Nos vemos na Stramilano!

Para maiores informações, consulte os sites: Stramilano e Milano City Marathon

San Valentino: apaixonar-se em Milão

Digam o que quiserem sobre Milão, incluindo que é uma cidade fria, e eu vou continuar a bater o pé para dizer que não é verdade, que Milão é, entre outras coisas, uma cidade romântica.

Um passeio pelos canais (I Navigli) de mãos dadas, namorar na tranquilidade e imersos nas belezas dos pátios e clautros mais bonitos da Itália, jantares românticos em restaurantes com as melhores vistas da cidade. Milão tem tudo para comemorar no melhor estilo o dia de San Valentino.

Decoração Via Montepoleone Milão

A decoração de San Valentino na Via Montenapoleone

Esse ano, para festejar o 14 de Fevereiro, dia de San Valentino, a famosa e chiquerríma Via Montenapoleone está toda decorada com corações suspesos e hospeda a Temporary Store dos famosos bombons Baci. Porque aqui, todo mundo um dia na vida já presenteou o próprio amado ou amada com um Bacio.

Um céu estrelado e paredes azul e prata forradas de frases de amor para receber os casais apaixonados que podem comprar caixas do famoso bombon em embalagens de edição limitada.

Loja Bacio Perugina em Milão

O temporary store da Bacio em Milão

E porque não, depois de um breve passeio, ir saborear os chocolates na frente do famoso quadro de Francesco Hayez, O Beijo (1859),  exposto na Pinacoteca de Brera.

Quadro O Beijo de Hayez

O quadro de Hayez na Pinacoteca de Brera

Milão oferece aos apaixonados, também um pouco de arte.

PS:. e para quem é solteiro, no dia seguinte, dia 15 de fevereiro, se festeja San Faustino, santo protetor dos solteiros.

Fotos: internet

“I paninari”, Milão e a moda dos anos 80

A década de 70 com seus eventos políticos e terroristas tinham ficado para trás, o teor de vida começava discretamente aumentar e a moda e suas grifes começavam a se propagar. Os jovens dos anos 80 queriam só curtir a vida sem se preocupar. É nesse cenário que nasce em Milão o movimento sub-cultural juvenil Paninaro.

Tudo começa mais ou menos em 1985 e a juventude milanesa burguesa, entre 14 e 18 anos que frequenta uma lanchonete do centro de Milão chamada Al Panino, se auto-nomeia I Paninari (literalmente Os Sanduícheiros, já que panino está para sanduíche).

O clássico paninaro dos anos 80

O look clássico do paninaro era casaco azul da marca Moncler por cima de um moleton Naj Oleari, jeans rigorosamente Armani com cinto (socorro!!) tipo texano da marca El Charro, meias estilo escocês, sapatos Timberland e óculos Ray-Ban, mas outras bizarras combinações também eram permitidas, desde que tudo fosse absolutamente de marca.

Pensando hoje dá vontade de sair correndo de alguém vestido assim, mas eram os anos 80 e, como não poderia ser diferente em uma cidade como Milão, o que contava era a aparência, a moda e a música. 100% superficialidade, tudo era permitido. Só quem foi adoslecente (como eu) nos anos 80 pode entender tamanha aberração de look.

Os “paninari” tinham um linguajar próprio, feito de gírias e palavras abreviadas e como diz o próprio nome, se nutriam de toneladas de hamburgers nos fast-foods italianos pré Mc Donalds. Estacionavam os seus scooters nas ruas do centro e passeavam para cima e para baixo entre Praça Duomo e Praça San Babila percorrendo Via Vittorio Emanuele e frequentando lojas como a histórica Fiorucci, embalados pelas músicas de Duran Duran, Falco e Spandau Ballet.

Os paninaros e a revista do movimento

E foi próprio a música a difundir o movimento na Itália e até em parte da Europa. Em 1986 os Pet Shop Boys estavam na cidade para gravar alguns programas de Tv e se impressionaram com a moda que enlouquecia os jovens daqui. Câmeras nas mãos, registraram imagens de jovens milaneses e vitrines de lojas e assim nasceu o vídeo (e música) Paninaro. É o auge do movimento, que virou também uma revista.

Como toda tendência que se respeite, a moda paninara teve vida relativamente curta e se concluiu com o fim dos anos 80 e quem foi paninaro, hoje já está bem crescidinho.

Nós brasileiros, adoslecentes nos anos 80 (com look e cortes de cabelo não menos bizarros), não conhecíamos o movimento, mas quem não se lembra da música?  Uma observação: o vídeo (qualidade) é tão tosco quanto os looks e moda da época.