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As quatro casas museus de Milão

Na vasta constelação dos museus de Milão, existem 4 pérolas colocadas no gênero das casas-museus. Uma casa-museu é um museu proposto em vários tipos de habitações como castelos, villas e apartamentos e que conservam grande parte dos móveis e coleções de arte da época em que eram habitadas.

Aproveitando meus estudos sobre Milão, no verão de 2012 decidi que conheceria bem, possivelmente com visitas guiadas, todas elas. As casas museus milanesas estão organizadas em um circuito e é possível conhece-las pagando o bilhete de cada uma delas ou um bilhete único, com validade de 6 meses e que custa 15 euros (cada bilhete único custa cerca de 9 euros).

Visitar uma casa museu em Milão é como voltar no tempo e entender um pouco da vida das famílias milanesas abastadas dos séculos 19 e 20, que generosamente doaram suas coleções à cidade onde viveram e fizeram fortuna.

Eu conheci todas elas e depois disso, em ocasiões diferentes, voltei. Deixo aqui um pequeno resumo e as dicas para uma visita diferente pela cidade.

Villa Necchi Campliglio

Sem sombras de dúvida a minha preferida e isso eu já disse mais de uma vez aqui no blog, inclusive nesse post dedicado esclusivamente a ela. Foi também a que visitei mais vezes (umas 5).

A vila é uma das várias obras na cidade, do arquiteto milanês Piero Portaluppi, grande nome da arquitetura racionalista (estilo arquitetônico entre o final dos anos 20 e os anos 30) e que assinou palácios na cidade como o Arengário (sede no Museu 900), o arco de Via Savini e a sede do partido fascista em Praça San Sepolcro.

Aqui, trabalhou para uma rica família de industriais do aço, que construiram a primeira casa com piscina e quadra de tennis da cidade. Portaluppi desenhou também grande parte dos móveis da casa e aqui e alí é possível ver a sua marca registrada: o losango.

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A casa era habitada pelo casal Gigina Necchi e Angelo Campiglio e pela irmã de Gigina, Neda e ainda hoje conserva nos 3 andares toda a mobília, louças, alguns quadros e até as roupas das refinadas irmãs Necchi.

Sem herdeiros, ao morrer em 2004, Gigina deixa a mansão para a FAI (Fondo Ambiente Italiano), associação que possui várias propriedades na Itália e que depois de reformá-la, a abriu ao público e restituiu a cidade uma parte da sua história contemporânea.

Os voluntários da FAI organizam visitas guiadas (em italiano e inglês) nos dias de abertura da vila. Eu, se pudesse, passaria por lá 1 vez por mês. Me acontento de vez em quando, de entrar no seu jardim com piscina (só a entrada da casa é a pagamento) e me sentar por 10 ou 15 minutos e curtir a Milão que poucos conhecem.

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Museu Boschi Di Stefano

Em um apartamento em um prédio também projetado por Piero Portaluppi, a vastíssima coleção de arte contemporânea italiana do casal Antonio Boschi e Marieda Di Stefano, grandes colecionadores que em 1973 doam tudo a prefeitura com a condição que essa abrisse um museu no apartamento.

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Única das quatro casas com entrada gratuita, infelizmente é pouco conhecida até pelos próprios milaneses e pouco frequentada pelos turistas.

As paredes são tapeçadas de quadros de grandes nomes da pintura italiana do século 20, como Lucio Fontana, Sironi, Umberto Boccioni, De Chirico, passando do período futurista aos anos 50.

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Para quem gosta do período e se interessa por arte, ou para quem está hospedado pelos lados de Corso Venezia, vale a visita.

Museu Poldi Pezzoli

Localizado a poucos passos do Teatro alla Scala e da Via Montenapoleone, é a primeira casa museu da cidade, aberta em 1881, 2 anos depois da morte de seu proprietário, o nobre Gian Giacomo Poldi Pezzoli, um dos colecionadores mais iluminados do século 19 milanês.

É um dos melhores exemplos de historicismo da Europa: cada ambiente se inspira em um espeficico estilo do passado e as suas salas reunem grandes obras que vão do século 12 ao século 19, com obras de artitas como Giovanni Bellini, Bernardino Luini, Botticelli, Mantegna, Canaletto, entre outros. Mas o museu conta também com coleções de relógios, ceramicas, móveis e a sua famosa coleção de armas medievais.

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Muito danificado durante os bombardeios de 1943 durante a Segunda Guerra, o palácio perdeu quase que completemente suas decorações fixas internas e afrescos e seu interior foi completamente reformado. Mas as salas modernas não tiram a fascínio da sua grande exposição.

O museu é bem aberto as crianças e tem um audio-guia especial para elas (as meninas adoram) e promovem uma série de laboratórios infantis. Praticamente um tesouro no coração de Milão.

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Museu Bagatti Valsecchi

O andar nobre do Palácio Bagatti Valsecchi (no quadrilátero da moda) foi reformado por volta de 1880 em estilo neo renascentista para se tornar a habitação dos irmãos Fausto e Giuseppe Bagatti Valsecchi e abrigar a coleção de obras de arte colecionadas e dispostas em ambientes que recriavam o Renascimento Lombardo.

Ao contrário do Museu Poldi Pezzoli, ele não foi atingido pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e seus ambientes são ainda os originais. Passear pelo museu é como voltar no tempo, entrando em cômodos que em pleno século 19 recriam os ambientes de cinco séculos antes, até nos utensílios usados pelas crianças como o berço e andador.

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Confesso que fui visitá-lo sabendo que se tratava de um museu de grande importancia na cidade, mas sem expectativas e fui surpreendida. Adorei!

De grande importância (como no Poldi Pezzoli) é sua coleção de armas e armaduras do século 15.

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Circuito das Casas Museus de Milão (site)

Villa Nechi Campiglio
Via Mozart, 14
De terça a domingo das 10 às 18
Bilhetes: inteiro 9 euros – meio 4 euros (crianças de 4 a 14 anos)
 
Museu Boschi Di Stefano (site)
Via Jan, 15
De terça a sábado das 10 ás 18
Entrada gratuita
 
Museu Poldi Pezzoli
Via Manzoni, 12
Fechado às terças.
Abertura nos outros dias das 10 às 18
Bilhetes: inteiro  9 euros – meio 6 euros (11 a 17 anos e acima de 60 anos) – crianças até 11 anos grátis
 
Museu Bagatti Valsecchi
Via Gesù, 5
De terça a domingo das 13 ás 17.45
Fechamento todo o mês de agosto
Bilhetes: inteiro 9 euros – meio 6 euros (crianças de 6 a 14 anos e idosos acima de 65 anos)- 6 euros (todas as quartas)
 

Milão de A a Z

Para cada letra do alfabeto (brasileiro) eu poderia ter achado mais de uma opção para definir essa cidade (ok, o X e Z provavelmente não), mas aqui está praticamente a primeira coisa que me veio a cabeça quando pensei em uma letra e uma coisa que a definisse em Milão.

A como Aperitivo

É o ritual milanês por excelência. Se difundiu em outras cidades italianas (no sentido de ser feito com a modalidade de buffet abundante), mas continua tendo suas raízes aqui.

Chic, descolado, caro, barato, com buffet, com petiscos, com os amigos ou colegas de trabalho: se você vive em Milão pelo menos 1 ou 2 vezes por semana vai “fazer um aperitivo” (leia o post).

Eles começam a partir das 18.30 e podem ser rápidos, só para antecipar o jantar tomando um Negroni, Spritz, Campari  ou uma taça de Franciacorta; ou pode ser mais demorado e substituir o jantar

Na sua passagem por Milão, escolha um bar e relaxe depois de um dia de turismo, como os milaneses.

B como Brera

O famoso bairro descolado, que fica atrás do Teatro alla Scala era, até os anos 90, um bairro popular e boêmio, graças a presença (desde o sec. 18) da Academia de Belas Artes e seus alunos artistas e, posteriormente da Pinacoteca de Brera, o museu mais famoso da cidade.

Chamado a Montmartre milanesa, Brera foi também o bairro dos bordéis até 1957, ano em que a prostituição passou a ser ilegal na cidade.

Nos anos 90 a redescoberta do bairro com a recuperação de vários edifícios e o boom imobiliário. Hoje, Brera com seus bares, restaurantes como Pisacco, suas galerias e lojas, tem um dos metros quadrados mais caros da cidade.

C como Castelo

O castelo de Milão fica no centro e tem suas origens em época medieval. Durante o Renascimento foi ampliado pela família Sforza (daí o nome Castelo Sforzesco) e virou residência ducal.

Por alí passou Da Vinci, que trabalhava para o duque Ludovico Sforza também como cenógrafo das festas de corte.

Hoje, as salas do castelo hospedam uma série de grandes museus municipais, como o Museu de Arte Antiga, Museu dos Instrumentos Musicais, Pinacoteca do Castelo e conserva uma das minhas obras de arte preferida e uma das pérolas dessa cidade: a Pietà Rondanini de Michelangelo.

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D como Design

Além da moda, Milão é famosa também pela excelência do seu design e escolas como o Politecnico e IED atraem todos os anos italianos e estrangeiros que vem estudar arquitetura e design industrial na cidade.

Nas últimas décadas (e ainda hoje) foi em Milão que  nasceram as idéias mais inovativas sobre o setor. Mas a cidade é famosa também porque aqui o design é um sistema baseado em um equilibrio produtivo entre business, cultura, profissionais, críticos, comunicadores, artesãos, empresários e centros de pesquisa, como o Politecnico.

A cidade lançou grandes nomes como Fornasetti, Achille Castiglione, Gae Aulenti e Giò Ponti, só para citar os mais famosos por aqui.

E como Elegância

Scott Schuman do blog de street style The Sartorialist já declarou que Milão é a cidade mais elegante para ele. Sim, ele se referia, provavelmente, aos milaneses e milanesas e seus estilos ao se vestir e também as grifes famosas da cidade, nascidas aqui ou não.

Prada, Armani, Versace, Dolce Gabbana, Gianfranco Ferrè e outras marcas nasceram na cidade e aqui se consolidaram a partir dos anos 80 (quando o eixo da moda italiana se transferiu de Florença para cá), dando um outro significado ao conhecido preat-a-porter. Sim, porque se Paris significa alta costura, Milão, ao meu ver, é a cidade do preat-a-porter de qualidade.

Caminhando por certos bairros e em certos horários (o comercial, por exemplo) é facíl encontrar homens e mulheres com suas roupas de cortes perfeitos emoldurados por acessórios e detalhes (como meias, sapatos, encharpes) que fazem dos milaneses os italianos mais bem vestidos no país.

F como Feiras

Algumas conhecidas como o Salão do Movél e Mido (óculos) e outras mais especializadas, Milão possui um polo feiristico enorme e conhecido mundialmente.

Ainda que não seja bem uma feira, e sim uma Exposição Mundial, Milão vai hospedar em 2015 a próxima Expo, que em 6 meses (de 1 maio a 31 outubro 2015), em uma área que está sendo construída exclusivamente para isso, esperar receber 20 milhões de turistas de todo mundo.

G como Galeria

“Il salotto di Milano”: a Galeria Vittorio Emanuele foi construída no final do séc.19 para ser um corredor chique entre as praças Duomo e Scala e assim é até hoje.

Alí, desde o ínicio se instalaram restaurantes, bares e lojas exclusivas (como a primeira Prada em 1913) para acolher a burguesia que passeava entre um espetáculo e outro do Teatro Scala.

A grande cobertura de vidro e ferro é de uma beleza sem igual na Itália, tudo completado pelo pavimento original e as decorações no alto a mosaico.

H como Hospedagem

Cidade de negócios e de muitas feiras, como o Salão do Móvel, por exemplo, Milão oferece vários tipos de hospedagem para quem vem a cidade. De hotéis de super luxo como Four Seasons, Hotel Bulgari, Armani Hotel, entre outros, passando por opções mais acessíveis como os bons 4 e 3 estrelas.

Para quem prefere as opções low cost, Milão oferece albergues da juventude recém abertos como o Gogol Ostello ou apartamentos para alugar, como o Milan Central Flat, que é  administrado por uma brasileira.

Confira as nossas dicas de hospedagem em Milão por bairros, clicando aqui.

I como Igrejas

Muitos não sabem, mas Milão perde para o número de igrejas só para Roma aqui na Itália. A maiora dos turistas não vai muito além do Duomo, o que é uma pena, já que a cidade tem inúmeras igrejas de grandíssimo valor histório e artístico e que conversam obras de arte e capelas revelantes para entender a própria história da cidade.

Deixo aqui uma lista curta das minhas preferidas, muitas deles no centro da cidade e no caminho de turistas desatentos: Santa Maria em San Satiro, San Simpliciano, San Gottardo, Sant’Eustorgio (Capella Portinari), Santa Maria delle Grazie, San Maurizio, Sant’Ambrogio.

J como Jogo de Futebol

Assim como os brasileiros, os italianos são grandes fãs do futebol e em Milão “o” jogo clássico, aqui chamadod e derby, é Milan x Inter.

Difícil desassociar a cidade desses dois grandes times italianos e do estádio mais famoso do país: San Siro (como é chamado pelos milanistas) – Giuseppe Meazza (como é chamado pelos interistas). Confesso que minha primeira vez em um jogo de futebol foi em San Siro para evr Milan x Catania e me diverti. Para os turistas assistir um jogo é mais difícil, já que o ingresso é vendido para uma rede de pessoas previamente cadastradas. Mas é possível conhecer o estádio durante a visita ao museu (leia o post).

Não importa se você é um rosso-nero (milanista) ou nero-azzuro (interista), o importante é torcer para um time da cidade.

L como Lojas

Em uma cidade como Milão é fácil encontrar todas as grandes marcas mundiais e suas lojas espetaculares, assim como as lojas das grandes marcas fast fashion (leia o post).

Mas Milão conta também com uma série de lojas locais e de concept stores que valem a visita como 10 Corso Como, Wait and See, Nonostante Marras, Wok e brechós como o conhecidíssimo Cavalli e Nastri.

Os eixos de compras mais acessíveis estão em Corso Vittorio Emanuele, Corso Buenos Aires, Corso Vercelli e Via Torino. O luxo está no Quadrilátero da Moda, Galleria Vittorio Emanuele e na loja de departamento La Rinascente.

As lojas mais descoladas e jovens ficam no eixo de Corso de Porta Ticinese e Navigli. Tem para todos os gostos e bolsos.

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M como Museus

Se engana quem pensa que Milão não oferece museus de prima linha. A cidade conta com uma rede museal composta de museus municipais, federais e particulares.

Se começa pela grande Pinacoteca de Brera para passar pela Pinacoteca Ambrosiana, que conversa os Códigos Atlânticos de Da Vinci, e pelos ótimos museus municipais dentro das salas do Castelo Sforzesco. Recém inaugurado, o Museu do Duomo conta a história da construção da catedral através de esculturas antigas e uma rica documentação.

A arte moderna e contemporânea ficam concentradas na Galleria di Arte Moderna, na coleção privada da Gallerie d’Italia e no Museo Novecento. O design é o tema principal do Triennale Design Museum.

Milão ainda conta com 4 excelentes casas-museus, antigas residências que foram deixadas pelos seus proprietários repletas de coleções de arte e móveis de época: Museu Poldi Pezzoli, Museu Bagatti Valsecchi, Museu Boschi di Sfefano e a belíssima Villa Necchi Campiglio, da qual falei nesse post.

Para fechar, o Palazzo Reale oferece durante todo ano, um calendário de grandes mostras nacionais e internacionais temporárias.

N como Navigli

Hoje a palavra Navigli (canais) significa só especificar um bairro de Milão, mas não fo sempre assim. Para quem conhece a cidade, é difícil imaginar que muitas vezes passamos por ruas onde até os anos 30 corriam uma grande rede de canais.

Grande recurso e meio de transporte da época medieval (o mármore do Duomo chegava na cidade através dos canais) até a invenção das ferrovias, os canais caíram em desuso no século 20 e nos anos 30 grande parte foi coberto em nome da viabilidade e da modernidade.

Hoje, o pouco que resta fica em uma das áreas mais agitadas de Milão a noite, com uma concentração de bares e restaurantes.

O como Ópera

Por mais que você não seja chegado no gênero musical, é difícil falar de Milão sem falar do Teatro alla Scala, um dos grandes teatros de lírica do mundo.

Com uma acústica perfeita, por aqui passaram os grandes nomes da lírica e do ballet mundiais, entre compositores, tenores, sopranos, maestros e bailarinos.

O que muitos brasileiros não sabem é que foi aqui que, em 1870, Carlos Gomes estreou mundialmente a sua grande ópera “O Guarani”.

Não deixe se intimidar pela fachada neoclássica austéra, o interior é de tirar o fôlego e é possível ve-lo se você visita o museu do teatro.

P como Parques

Milão, infelizmente, não pode ser considerada uma cidade verde. Os parques mais famosos da cidade, dos quais falamos nesse post, se concentram no centro e arredores, como é o caso do Parco Sempione, atrás do castelo e o Giardini Pubblici, o meu preferido, que fica no Corso Venezia e hospeda o Museu de História Natural da cidade.

Para quem está por aqui com crianças, vale a pena também (o meu querido) o jardim posterior da Villa Reale, que fica em frente ao Giardini Pubblici. Ele é realmente muito bonito e tranquilo, já que a entrada é probida para adultos que não estão acompanhados de crianças (até 12 anos).

Q como Quadriláteros

Sim, no plural. O quadrilátero mais famoso da cidade e do mundo é o nosso chamado Quadrilátero da Moda (ou de ouro), ou seja, as quatro ruas que concentram um grande números de marcas de luxo (roupas, jóais, relógios, móveis e design). Mesmo para quem não tem intenção de arruinar a carteira nas redondezas, vale um passeio para olhar vitrines e apreciar a arquitetura do bairro.

Mas meu quadrilátreo preferido na cidade é o mesnoa conhecido e do qual falei nesse post: o Quadrilátero do Silêncio. Um conjunto de poucas ruas paralelas ao Corso Venezia, com edíficios de arquitetura liberty (art nouveau) e que te catapulta em uma outra dimensão pelo…silêncio. Tudo isso a dois passos do centro.

R como Restaurantes

Aqui a lista poderia ser infinita, com as minhas indicações pessoais ou simplesmente uma lista de grandes nomes da cozinha italiana (os chamados estrelados) que tem seus restaurantes em Milão.

Caro ou barato, em pé, na rua ou sentado, Milão tem restaurantes e cozinhas para todos os gostos e bolsos. Um panino (sanduíche), um panzerotto no Luini, comer com vista para a abside do Duomo, um brunch com uma sala dedicada ao chocolate… Escolha o seu tipo de restaurante e bom apetito.

S como Santa Ceia

Sem dúvida a maior obra de arte da cidade, do próprio Da Vinci e uma das mais conhecidas e reproduzidas do mundo.

A grande parede do refeitório dos domenicanos, pintada a seco (não é um afresco, leia a sua história nesse post) a pedido do duque Ludovico Sforza, atrai todos os anos milhares de turistas de todo mundo. Admira-la requer uma certa dose de organização, já que os bilhetes para a visita de 15 minutos começam a serem vendidos com 3 meses de antecedência.

T como Transportes

Esqueça o carro alugado. Milão conta com uma rede de transporte público que satisfaz completamente as exigências dos turistas (e moradores). O metrô tem 4 linhas urbanas e mais algumas integradas com o que chamamos de “passante”. A integração do bilhete vale também (por 90 minutos) com os ônibus e bondinhos da cidade.

Na primavera ou verão uma opção, mesmo para os turista, pode ser o serviço de Bike Sharing da cidade, onde é possível “alugar” uma bicicleta para rodar pela cidade. Leia nesse post como usar o serviço BikeMi.

Para quem não renuncia ao taxi, saiba que eles (quase sempre) não param na rua e devem ser pegos nos vários pontos espalhados pela cidade.

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U como Um dia não basta

Para muitos brasileiros Milão ainda é vista como uma cidade de chegada na Itália e de passagem: daqui se parte para a descoberta “del bel paese”. Com isso, a média de estadia dos turistas aqui ainda é bem baixa.

Fico sempre perplexa (para não usar outras palavras) com quem passa por aqui por 1 dias, não explora muito além do “centro-centro” e volta dizendo para amigos e parentes: Milão não tem nada.

Se fosse assim, esse blog não existiria e se fosse assim, esse post não existiria.

Milão não é uma cidade para preguiçosos. Vá além do óbvio, vá além dos guias de turismo e acredite: Milão não é só o Duomo, Castelo e Galeria e um dia só não basta.

V como Vida Noturna

Muitos leitores me escrevem emails cobrando dicas de vida noturna no blog. Para quem ainda não entendeu, sou uma jovem senhora de 40 anos com 2 filhas pequenas e minha idéia de vida noturna está mais para uma ida ao cinema, um jantar com amigos ou no máximo um aperitivo que vai até mais tarde.

Dito isso, não quer dizer que uma cidade como Milão não tenha uma vida noturna agitada. Cidade de modelos, jogadores de futebol, estilistas e empresários, Milão ainda tem essa modalidade, que eu não suporto, do police door: escolher quem entra ou não entra. Já vi lugares com filas homéricas fora e que quando você está meio vazio. A “fila” faz o lugar ficar famoso.

Me limito a deixar uma lista dos clubs noturnos mais famosos da cidade: The Club, Just Cavalli Hollywood, Sio Café, Bobino Club, Tocqueville, Hollywood, Alcatraz.

X como Xeretar

Milão não é uma cidade óbvia, é cheia de segredos e belezas muitas vezes escondidos atrás de fachadas austeras e portões pesados. Pode ser difícil para o turista, que passa aqui pouco dias, conseguir colher a essência e a beleza da cidade.

A minha dica é que você xerete o máximo possível, que alongue o pescoço toda vez que tiver um portão aberto e que for possível espiar (porque muitas das propriedades são privadas), que entre em pátios abertos e que foram transformados em espaços para pequenas lojas, que visite os claustros das igrejas, que olhe para cima para apreciar as cariátides e telamones dos palácios.

Z como Zanzar

E essa última letra está estritamente ligada a anterior. Porque é impossível xeretar sem zanzar pela cidade. Milão é uma cidade plana e relativamente pequena para os padrões brasileiros. A melhor maneira de conhecer a cidade é caminhando entre os bairros e as atrações mais ou menos turísticas.

O Museu do Duomo de Milão

Depois de 5 anos de portas fechadas para os trabalhos de restauração interna e de renovação do percurso expositivo, a cidade reinaugurou no dia 4 de novembro o grande museu dedicado a história de seu símbolo: o Museu do Duomo.

Aberto pela primeira vez em 1953, o museu reúne e expõe 626 anos da história da catedral milanesa através de esculturas, moldes, rascunhos, documentos  e relíquias.

Uma vez escutei uma guia que disse: as pessoas deveriam visitar os museus das catedrais para entender a suas histórias. Nada mais verdadeiro.

O percurso, que inclui 26 salas,  começa com as peças que compõe o tesouro da catedral e apresenta uma série de crucifixos, cálices e candelabros feitos de ouro, prata e bronze, alguns deles cravejados de pedras preciosas. Confesso que não é a minha parte preferida e passei pelo ambiente mais maravilhada com as paredes e abóbodas medievais do antigo Palácio Ducal (hoje Palazzo Reale) descobertas durantes os restauros. No começo estranhei a pouca iluminação, que deixa os ambientes em penumbra, mas logo entendi que direcionar a luz às obras as coloca em primeiro plano.

 

Museu Duomo Milao

Assim que se deixa para trás a parte do tesouro, em ordem cronológica começa a viagem pelas esculturas originais de mármore da catedral. Sim, porque o delicado mármore de Candoglia se corroí muito fácil e as estátuas e revestimento da catedral são trocados a cada 30 anos mais ou menos.

Assim, temos a primeira estátua colocada sob um pináculo no final do século 15 e conhecida como estátua Carelli (nome do seu patrocinador) que personifica o então senhor de Milão, Galleazzo Visconti, nas vestes de São Jorge (sem cavalo).

Milao Museu duomo

Dalí em diante são várias salas dedicadas as decorações externas e internas da catedral, incluindo as minhas adoradas gárgulas e uma escultura em madeira enorme que representa a cabeça de Deus.  Uma das coisas que achei mais legal é o fato que as esculturas, quadros e moldes quase sempre estão ao alcance do visitante, sem proteções. É como ver o Duomo com uma lupa.

Uma das salas no meio do percurso é dedicada a alguns vitrais originais da catedral. Completamente escura (a iluminação vem de trás dos vitrais), é possível ver de perto esse magnífico trabalho artesanal medieval, usado para contar histórias da bíblia.

Vitrais museu duomo milao

Também passei um bom tempo na sala que expunha os quadros monocromos do (aqui) famoso pintor Cerano, usados como rascunho e colocados ao lado dos respectivos moldes em barro do que viriam ser (em mármore) as cenas sobre as portas da catedral. Sim, era um trabalho enorme: quadro, molde em barro e finalmente, escultura em mármore. Mas cada um em si já é uma obra de arte.

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Nas últimas salas, é possível ver umas das estruturas em ferro usadas para “rechear” a estátua de Nossa Senhora que reina soberana sobre o Duomo  e, uma das peças mais espetaculares do museu, o modelo em madeira (escala 1:20) da catedral. Já tinha ouvido falar desse famoso modelo feito no século 16 em madeira de tiglio, mas só quando finalmente estava na sua frente, entendi a grandiosidade do trabalho. Construíram o Duomo duas vezes.

 

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Modelo em madeira durante a montagem. Foto: Massimo Zingardi

A visita termina com os não menos interessantes moldes e projetos para as cenas das portas da catedral, que foram realizadas só nos anos 60 a partir de desenhos deixados por grandes pintores.

Visitei o museu 3 dias após a inauguração e tive a sensação que alguns detalhes devem ser ainda arrumados. Em um pequeno corredor diante de 3 aberturas, não foi fácil saber onde começava o percurso, mesmo com o mapa improvisado que me deram na recepção. A recepcionista também me informou que no momento os áudios-guias não estavam prontos .

Saí com a sensação de que devo e quero voltar para uma visita ainda mais detalhada e a primeira coisa que fiz, foi correr para a frente da catedral, para tentar entender ainda melhor a sua história leia o post sobre o Duomo de Milão clicando aqui

Ps:. Uma mea culpa: quando entrei não perguntei a recepcionista se podia fotografar e não tinham cartazes que indicavam a proibição. Fotografei sem ser interrompida até a sala com o modelo de madeira da catedral. De um certo modo, as fotos desse post são exclusivas (ainda que proibidas).

Museo del Duomo – Palazzo Reale
Praça Duomo, 1
De terça a domingo das 10 às 18 (último ingresso as 17)
Fechado: segundas, 1 janeiro, 1 maio; 25 dezembro (24 e 31 dezembro fechamento as 14)
Ingressos:
Inteiro: 3 euros (é o mesmo ingresso que dá direito à visita ao interior da catedral)
 
 
 
 

Piero Fornasetti e um rosto 350 vezes

Se festeja esse ano o centenário do nascimento de Piero Fornasetti e o Triennale Design Museum apresenta a primeira grande, e inédita, mostra dedicada a ele na Itália. De novembro a fevereiro do ano que vem vai ser possível admirar cerca de 700 peças provenientes, na maior parte, do extraordinário arquivo mantido pelo seu filho Barnaba.

fornasetti design milao

Piero Fornasetti (1913-1988) foi um artista milanês de múltiplos talentos e prolífico: pintor, decorador e designer, teve a sua época de ouro nos anos 60. As suas obras decoram casas de elite mas são desconhecidas pelo grande público. Fornasetti criou 11.000 produtos de todos os tipos: móveis, pratos, vasos, lustres, tecidos, azulejos nos quais o contraste entre realidade e ilusão é sempre presente. Entre seus temas preferidos, um dos mais recorrentes são o sol, os baralhos, arlequins, mãos, auto-retratos e balões. Mas as obras mais conhecidas são as 350 variações do rosto de uma mulher realizadas em pratos e outros objetos.

milao design fornasetti

Essa mulher representada 350 vezes é a cantante lírica Lina Cavalieri (1875-1944), conhecida pelo público do mundo inteiro pela sua beleza e secundariamente pela sua voz.

Apesar de suas origens humildes (tinha vendido flores e jornais), tinha uma postura e comportamento de grande dama e tinha quem a considerasse a mulher mais bonita do mundo. Lina teve uma vida movimentada, com três casamentos e diversos amantes. Se conta que até o famoso industrial Davide Campari, completamente apaixonado por ela, a seguiu por vários tours pela Europa e Russia, aproveitando para divulgar seu próprio aperitivo: o Campari.

Lina Cavalieri

Fornasetti encontrou esse rosto folheando uma revista francesa e ficou impressionado: “O rosto de Lina Cavalieri é um verdadeiro arquetipo: a síntese de uma imagem de beleza clássica, como uma estátua grega, enigmática como a Monalisa.”

fornasetti_milao

O filho de Fornasetti, continua a produzir os produtos do pai, vendidos em pouquíssimas lojas no mundo. Em Milão são duas: o loja dedicada ao artista e na famosa concept store 10 Corso Como.

Se você se apaixonou por Lina Cavalieri, a próxima vez que vier a Milão, dê uma passadinha.

Mostra Temporária – Triennale Design Museum
Piero Fornasetti: 100 anni di follia pratica
De 13 de novembro 2013 a 9 fevereiro 2014
 
Spazio Fornasetti
Corso Venezia, 21/A
www.fornasetti.com
 
10 Corso Como
Corso Como, 10

 

Vila Necchi Campiglio

Desde que comecei a escrever o blog, há poucos meses atrás, fiquei pensando em esconder uma das maravilhas dessa cidade, minha menina dos olhos, lugar pelo qual me encantei  desde a primeira vez que visitei.

Achei que podia ter esse direito de esconder essa  pérola, de ficar com esse segredo pra mim, preservar esse cantinho da cidade pouco visitados pelos turistas estrangeiros e que é um raro exemplo de casa burguesa do início dos anos 30 em Milão.

Mas depois lembrei que meu compromisso é gritar para todos os brasileiros o quanto de maravilhoso essa cidade tem à oferecer além das badaladas vitrines e resolvi que deveria contar para vocês da Villa Necchi Campiglio, que hoje faz parte do circuito das casas-museus de Milão.

vila necchi campiglio MIlao

Conta a lenda que a família Necchi Campiglio, ricos industriais da área de Varese, queria comprar um terreno para construir um mansão no centro de Milão. Em uma noite de forte névoa, voltando de um concerto no Teatro Scala, se perderam e foram parar em uma rua onde um grande terreno tinha uma placa de vende-se.

Construída entre 1932 e 1935 pelo arquiteto milanês Piero Portaluppi sem limite de orçamento, a mansão para a época era o que existia de mais moderno, exemplo do recém-nascido racionalismo italiano. E foi essa modernidade (que hoje é uma modernidade retrô) que mais me encantou na casa.

vila necchi Milao

A mansão é uma obra de arte em si e o interior é enriquecido com inúmeras pinturas, escultura e móveis (os melhores são os desenhados pelo arquiteto da casa) comprados pela família ao longo dos anos na Itália e em diversas partes do mundo.  Tudo rodeado por um enorme jardim com piscina (uma das poucas na época na cidade) e um campo de tênis.

São 4 andares (o subsolo, onde ficavam as cozinhas não estava aberto para visitas) com a decoração intacta, como se seus três habitantes (Angelo Necchi, Gigina Campiglio e a irmã Nedda Campiglio) tivessem saído e fossem voltar a qualquer momento.

No térreo ficam o hall, o escritório, biblioteca, sala de estar, copa,  sala de  jantar e uma maravilhosa varanda toda de vidro que,  para o lado que dá para a casa, é dotada de duas grandes portas blindadas de ferro desenhadas por Portaluppi que são design puro. Meu cantinho preferido na mansão.

necchi campiglio MIlao

No andar superior um corredor feito de portas leva aos quartos do casal, de Nedda  e aos armários que ainda hoje mostram  as luxuosas roupas e acessórios das irmãs Campiglio. Até os banheiros valem a visita. No segundo andar também ficavam os quartos dos hóspedes e  das duas camareiras responsáveis pelos guarda-roupas das irmãs.

corredor

O último andar, quase um grande sótão, abrigava os aposentos e banheiros dos empregados domésticos e uma sala e hoje é usado como espaço para exposições temporárias.

Os ambientes mais característicos e os meus preferidos são os que mantiveram o estilo racionalista de Portaluppi, porque uma vez terminada a casa, mesmo o culto casal Nacchi Campiglio teve dificuldades em aceitar o estilo troppo moderno para a época e posteriormente chamaram um outro arquiteto para nobilizar alguns ambientes. O resultado, na minha opinião, não é o máximo.

A casa foi habitada por Gigina até 2001 e depois da sua morte foi doada ao Fondo per l’Ambiente Italiano, que administra a mansão e propõe visitas guiadas (também em inglês) diariamente.

O belo jardim acolhe a charmosa cafeteria, com entrada independente para quem não quer visitar a mansão, que é perfeita para um café ou um drink nas manhãs e tarde de primavera e verão em Milão.

jardim necchi campiglio milao

Por que uma pérola assim, em pleno centro , não é toda cidade que tem.

Villa Necchi Campiglio
 Via Mozart 14
De quarta à domingo das 10 às 18
Ingresso: 8 euros (inteiro) 4 euros (crianças de 4 a 12 anos)
Visitas guiadas em italiano e inglês (segundo a disponibilidade)