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Antigas áreas industriais convertidas para a arte em Milão

Era uma vez uma Milão industrial, cheia de fábricas e galpões que vira uma Milão pós-industrial, cheia de bancos, lojas e escritórios e abandona seus enormes espaços, muitas vezes localizados nas ‘periferias’.

Uma cidade tem que se reinventar ao longo de sua história, mas reinventando-se nas atividades primárias a um certo ponto também tem que reinterpretar seus espaços urbanos.

Nos últimos 4 ou 5 anos, a cidade soube reaproveitar as antigas áreas industriais que fizeram parte da sua história de capital econômica do país, transformando-as em grandes e modernos centros de exposições, fundações e museus.

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A Itália é um país lindo, diversificado, mas o Norte do país ainda é pouco explorado pelos turistas, incluindo os brasileiros. Uma pena, já que também por aqui é possível encontrar paisagens encantadoras, centros históricos pitorescos e ofertas culturais e artísticas de primeira.

Armani Silos e Mudec em Milão

Ainda longe da invasão turística, desde maio de 2015 o bairro de Zona Tortona ganhou dois novos museus, bem diferente entre eles: Armani Silos e Mudec, o Museo delle Culture.

O bairro, que tem um passado industrial recente, é cheio de grandes espaços como galpões, que nos últimos anos chamaram a atenção de grandes marcas da moda, que ali montaram seus show rooms e fotógrafos e artistas que estabeleceram seus estúdios.

Zona Tortona ‘ferve’ praticamente uma vez por ano, durante o Salão do Móvel, já que nas ruas do bairro é armado um dos espaços mais interessantes do Fuori Salone.

A Fundação Prada em Milão

Imaginem uma milanesa D.O.C, empresária de grande sucesso, conhecida mundialmente, colecionadora de arte, que um dia resolve compartilhar tudo isso com a sua cidade e pensa: quero fazer bem feito, moderno e lindo.

Acho que foi o que pensou Miuccia Prada quando decidiu dar de presente para a  cidade a recém inaugurada Fondazione Prada.

Pontos para o desafio de não pensar na zona central da cidade e se estabelecer na (considerada) periferia sul de Milão, logo abaixo de Porta Romana. Mais pontos ainda por ter recuperado uma imensa ex área industrial (como fez também seu colega Armani em Zona Tortona) típica da arquitetura e história da cidade.

São 19.000mt² onde no século passado (1916) funcionava uma destilaria. O projeto do famoso arquiteto holandês Rem Khoolas, que também projeta algumas lojas Prada pelo mundo e cuida da cenografia de alguns desfiles, aproveita os espaços de diferentes tamanho e altura do complexo para compor um conjunto dinâmico e ao mesmo tempo harmonioso, que funciona.

Fundação Prada Milão

Os espaços abertos dos pátios e o bar são acessíveis sem o pagamento do bilhete (que serve só para o acesso às mostras) fazendo do lugar um novo ponto de encontro para os milaneses.

Os espaços fechados articulados em galpões divididos em salas de diferentes tamanhos, outros deixados como espaços únicos, a já emblemática torre dourada (folheada a ouro) e subsolos hospedam as exposições permanentes e temporárias das obras de arte Sra. Prada e seu marido.

A coleção do casal é imensa e cheguei a perguntar para uma das monitoras onde estava tudo isso antes da fundação ser aberta: “Em depósitos”, ela respondeu. A coleção é predominantemente de arte contemporânea, algumas tão conceituais que mesmo com a explicação dos monitores (que vestem um uniforme Prada não tão bonito) são difíceis de entender. Mas no todo, funciona.

Milão Fundação Prada

Lucio Fontana, Yves Klein, Louise Bourgeois, Roy Lichtenstein, Piero Manzoni, Michelangelo Pistoletto, são só alguns nomes dos artistas com obras expostas na fundação. Dada as dimensões da coleção, as obras serão expostas em rotação nos espaços dedicados às mostras temporárias.

Tudo isso ainda é coroado por um cinema com 200 lugares e com entrada grátis, onde serão exibidos ciclos dedicados a grandes diretores do cinema mundial (eles começaram com Polanski) e pelo também já icônico Bar Luce, que teve a decoração projetada pelo excêntrico diretor de cinema Wes Anderson e propõe uma revisitação dos bares milaneses na década de 50, com direito a juke box e flipper.

Bar Fundação Prada Milão

No momento, uma outra grande torre, que terá 9 andares de alturas diferentes está sendo construída (previsão de abertura jan 2016) e vai hospedar outras salas para exposições, uma sala conferência e um restaurante no teto.

Com certeza o lugar vai virar um ponto de referência cultural na cidade. Que seja para visitá-la por completo ou só passar para conhecer o espaço e tomar um café, inclua a Fundação Prada na sua próxima passagem por Milão.

A Fundação Prada também tem um espaço dedicado à fotografia na Galeria Vittorio Emanuele, o Osservatorio, da qual falei nesse post.

Fundação Prada (site)
Largo Isarco, 2
De dom a quin das 11 às 19
Sexta e sábado das 11 às 22
Fechada às terças
Ingressos: 10 euros (o ingresso é válido por 7 dias para visitar o Osservatorio na Galleria Vittorio Emanuele)
Grátis até os 18 anos e acima de 65 anos
Como chegar: M3 Lodi (linha amarela) e depois cerca de 10min a pé
Ônibus 79: descer no Largo Isarco
  

 

Os vinhedos de Da Vinci em Milão

Quem conhece um pouco da vida de Leonardo Da Vinci, sabe que ele era toscano (da cidade de Vinci), morreu bem idoso na França, mas que o auge da sua vida criativa foi em Milão.

Da Vinci chegou na cidade com 30 anos. Veio “mandado” por Lorenzo Medici, senhor de Florença, ao seu aliado Ludovico Sforza, duque de Milão. Naquela época era comum a troca de artistas entre as cortes em sinal de amizade.

Mesmo assim, Da Vinci teve que mostrar a Ludovico do que era capaz. Não foi difícil. A história conta que ele se apresentou ao duque com um curriculum onde descrevia suas habilidades em 12 pontos. Caiu logo nas graças do duque e por 18 anos serviu a renomada corte dos Sforza, trabalhando como pintor, escultor, cenógrafo das festas de corte (sim, cenógrafo), projetista de armas e variados instrumentos.

Mas de tudo o que deixou e fez durante a sua vida, ainda é a Última Ceia a sua obra mais famosa. Sobre a sua história e curiosidades já falamos nesse post, mas outra curiosidade ao redor da obra e da vida de Da Vinci em Milão, é o fato de que parte do pagamento pela execução da Última Ceia, seriam alguns vinhedos dados por Ludovico a Leonardo, nos arredores da Basílica de Santa Maria delle Grazie.

Da Vinci em Milao

Quem visita a igreja e a famosa obra do gênio toscano, nem repara em uma casa do outro lado de Corso Magenta: a chamada Casa degli Atellani. Segundo os historiadores, onde hoje é o jardim da propriedade ficavam os vinhedos de Leonardo.

O terreno foi doado a pintor no final da sua estadia em Milão. Logo depois o ducado cai nas mãos dos franceses e Leonardo abandona a cidade. Leonardo morre em 1519 e no seu testamento deixa os vinhedos a Salai, um de seus discípulos.

Milao Da Vinci

A Casa degli Atellani sofreu profundamente com os bombardeios da Segunda Guerra Mundial e o terreno foi praticamente soterrado embaixo dos escombros.

A primeira vez que tive a oportunidade de visitar a propriedade, foi por puro caso em 2013, quando ela estava aberta durante um Salão do Móvel. Eu sabia que ela era uma casa importante na história de Milão, mas entrei sem expectativas e me deparei com um dos jardins posteriores mais lindos da cidade. Naquela época os vinhedos não tinham ainda sido “reposicionados” no jardim.

Da Vinci em Milao Ultima Ceia

A Casa degli Atellani é propriedade privada, mas para o período da Expo um projeto de escavações e estudos biológicos, quis repropor a posição dos vinhedos de Leonardo na sua posição original. Aberta desde maio, eu revisitei a casa (térreo) e os jardins de novo há algumas semanas, com uma visita guiada por um audioguia (disponível também em português) que explica a história da propriedade Renascentista e suas vicissitudes.

Segundo a organização, as visitas serão garantidas até o final de outubro e só serão prorrogadas caso haja uma afluência de turistas que justifique a abertura. No dia que fui, éramos um grupo grande, mas praticamente de milaneses, ainda que o local fique na frente da famosa obra do pintor e seja sinalizada com um grande cartaz.

Milao e Leonardo Da Vinci

Na parte da frente, acabei almoçando um sanduíche no pequeno restaurante montado ao lado da recepção.

Para quem quer conhecer um pouco da “Milão secreta” é visita obrigatória.

Museu Vigna di Leonardo (site)
Corso Magenta, 65
De seg a dom das 9.00 às 18
Ingressos: 10 euros (inteiro) e 8 euros (reduzido: over 65 anos, e dos 6 aos 18 anos)
Audioguia: incluído no preço (disponível em  português, italiano, inglês, francês, espanhol, japonês, coreano, chinês, russo e alemão)
Duração: cerca de 25 minutos
Grupos de no máximo 25 pessoas por vez